



Quinta-feira, Julho 27, 2006
A COMPAIXÃO
No sentido de co-sentimento (e não de co-sofrimento), como seria traduzida pelas línguas que não descendem do latim
"Não existe nada mais pesado que compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos."
trecho do livro "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera
Deus do (meu) Breu
Já era tarde, eu bem sei
Mas sucedeu o que não pensei
Um ser alado, um macaco doido
Todo afoito a me encantar
Só contando pra acreditar
Estava escuro, cheguei lá
Um frio no osso de se cortar
E as estrelas a alumiar
Um conto desses de se contar...
Abri um olho
Depois o outro
Virei pro lado
Ainda torto
E assustei-me de supetão
Não, não foi ilusão
A perna cabreira
E o encanto mudo
Tava logo ali o dito cujo!
De tão assustada quase fujo
Não dei por mim que merecia tanto
Parecia milagre, mas no entanto
Estava ali de carne e osso
Cheio de brilho até o pescoço
Contemplei sozinha o Deus Negro
Por dois tempos, em segredo
Um tesouro que almejava meu
O rei mais lindo de todo o breu
Das minhas lembranças
Pensei em prendê-lo
Mas que diacho!
Seria um tanto quanto arriscado
Que graça tem o mais belo rei
Sem seu majestoso principado?
Preferi me esconder
E castrar meu querer
Um presságio da dor
Que iria sofrer
Ao procurar a poesia
Que ainda arrupia
Em qualquer magia
Que não fosse te ter
Hoje vago por outros reinados
Mas sua lembrança é meu doce fardo
E o brilho que eu tinha ao seu lado
Anda um tantinho de nada embaçado
Prometo mudar o rumo da prosa
Fazer-me sempre bela e formosa
Para revelar-te meu, afinal
Sempre que sonhas sonhos no plural
E ferve-lhe o sangue de forma tal
Que meus gemidos fazem-se seus
E acordas imponente Deus
Desse amor
Sobre o Tempo (e o perdão)
"O tempo é algo precioso. E os anos ensinam mais do que os dias jamais saberiam."
trecho do filme "De Encontro com o Amor"
Ah, se eu pudesse!
Se eu pudesse escolhê
Sonhava a noite toda c'ocê
Dia sim, dia não
Que é pra num ficá apegado
Purquê sonhar um bocado também
Não deve fazê bem
Esse vai-e-vem de fantasia
Pode aprisionar a alegria
E transformar tudo em fardo
Mas se eu tivesse um poder danado
Ocê já tinha era chegado duma vez
Pra nóis sonhar juntinho
E rechear nosso ninho
Com os filhos da lucidez
O FEITIÇO DA MUIÉ BORBOLETA
Hoje acordei virado na bagaceira
E eu ja to pelas bera com essa situação
Despertei avexado logo manhã
Acordei com a boca doce
que eu pensei até que fosse
o mais puro mel de romã
Como pode um cabra relento
com um sonho tao bunito
chega me agonia aqui dentro
pensar nesse fato esquisito
Era uma noite escura
chega as vista ficava preta
Me aparecia uma criatura
metade vaga-lume, metade borboleta
Pousou no meu nariz
como quem nao queria nada
e disse toda feliz:
você agora tem uma fada.
Vixe. Agora é que danou-se
Botaro cachaça no meu café
Eu conversando cum vaga-lume
que tem cara de muié
Sacudi minha cabeça
fazendo avoar aquele trocinho
alumiava feito candieiro
fazendo um rastro com seu caminho
Antes que eu me desse conta
ja tava todo enfeitiçado
A cabeça meio tonta
os cabelo arrupiado
To ficando é maluco
com essa muié-borboleta
parece até q to fumando
o cigarro do capeta
Arrodiou o meu pescoço
parou no pé do meu ouvido
e disse: ande seu moço
faça logo seu pedido.
Ahh... agora to entendendo!
então eh isso
tu é daqueles anjo
que sabe fazer feitiço
Oxe seu minino
Num so vaga-lume, nem borboleta
nem anjo nem muié
Mas pra adiantar nosso selviço
tu me chame do que quizer
Disse ela sorrindo
com os zoin apertado
avexando meu juizo
e me deixando encabulado
Então ta certo fadinha do sertão
Se é pra pedir, num vo economizar
Cansei de andar com pé no chão
De agora em diante eu quero avoar!
Sair por ai feito piriquito
céu afora, desembestado
quero ver se é mesmo tão bunito
o mundo visto daquele lado
Nem deu tempo de piscar
ja senti o corpo dormente
Era um calafrio que vinha da espinha
que fazia bater os dente
Não conseguia parar de tremer
e num tem macho que consiga
Quando vi ja tava perto das nuve
Vendo cabrito do tamanho de formiga
Valei-me meu Padin Ciço
cade essa fada que sumiu?
Me trouxe pra riba com esse feitiço
fez o trabaio todo e fugiu
Fugi não cabra medroso
Num ta vendo q to do seu lado
aproveita esse vento gostoso
disse ela achando engraçado
Nao demorou muito
eu ja tava bem a vontade
De longe via as montanha, rio, cachoeira
Natureza de verdade
Era tanta coisa linda
que nao sei dizer ao certo
se era mais bunito de longe
ou melhor ver bem de perto
La de cima vi um lago
tao azul q quase choro
tanta água era luxo
lá nas banda onde eu moro
Puxei a fada pelo braço
e me joguei la de cima
quanto mais chegava perto
mais ficava cristalina
Mergulhamo naquele azul
e ai foi que assucedeu
A fada se alevanta
Do mesmo tamanho que eu
Como pode um musquitin
crescer tao depressa
mergulha uma borboleta
e sai uma mulher dessa
Ela disse: feche o zoio
que seu sonho num acabou
De perto sentia o cheiro
como vindo de uma flô
Me beijou devagarinho
parecia algodão
tao macio e tao docinho
que nem doce de mamão
Acordei bem nessa hora
todo desconfiado
Ja num tava mais dormindo
mas sentia o colchão molhado
Aprendi que não tem jeito
uma fada nao se ama
ou tu vai ter dor no peito
ou fazer xixi na cama.
Pietro Leal
Sobre o agora
Vivo tão intensamente o momento presente
que quase chego atrasada ao momento seguinte.
Rita Apoena
Meias-palavras?
Meias?
Não, prefiro não pisá-las
CONTEMPLAÇÃO
Estado de espírito: apaixonada pela vida.
E encantada pela intensidade dos momentos.
O amor é lindo. E conseguir falar universalmante sobre ele, é mais lindo ainda... Viva as palavras de Milly Lacombe
EU JÁ TE DISSE?
A colunista reflete sobre o fim de um relacionamento
Sabe do que eu gostava e nunca te falei? Quando você saía do banho. Você nunca conseguiu se secar direito. Vinha pingando pelo quarto. Cabelo displicentemente penteado, e completamente encharcado. De calcinha, e escorrendo água por aquele corpo reto, sarado, lindo. Aí, como se estivesse completamente seca, você deitava na cama, do meu lado. Colada. E me beijava com a boca doce, úmida, só minha.
Depois de um tempo, lembrava dos cachorros, e abaixava, de bruços, para recolhê-los para cima. Enquanto fazia isso, me lançava um olhar que pedia aprovação. Se eu não dissesse nada, você cantarolava alguma coisa, algumas daquelas músicas que você compunha para eles e me fazia rir muito, e lá vinham aqueles dois cachorros miúdos correr pela cama em volta de você. Eu só deixava, e isso eu nunca te falei, porque adorava a cara que você fazia.
Você ria como uma criança. Uma criança que você é, e nunca vai deixar de ser. E isso, talvez eu nunca tenha te dito, é das coisas mais bonitas que você tem. Bonito porque, mesmo sendo tão pura e ingênua, você é madura, forte, determinada. Você é tudo isso em uma só. E o que me atraiu em você, numa tarde de verão californiano, foi exatamente essa mistura rara. E isso, eu acho, nunca te disse.
Eu também nunca te disse que você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, disse? Disse que nunca antes tinha amado de um jeito tão forte, tão químico, tão sensível? Que nunca tinha tremido de paixão como naquela noite que você me beijou no sofá da sala? E em todas as seguintes. Já te disse? E eu já te disse que você me entendia como ninguém jamais me entendeu na cama? Que eu nunca fui tão longe? Que te ver sorrindo em cima de mim, só pra mim, talvez seja, até hoje, minha paisagem predileta?
Sabe do que mais eu gostava? Quando você imitava o cara do desenho animado, o portuga. Eu ia trabalhar lembrando da imitação e morria de rir, sozinha no carro. Eu já te disse que te amei, entre tantas outras coisas, porque você me fazia rir? Já te disse que hoje, quando a gente se encontra e consegue superar a dor para falar do passado, você ainda me faz rir assim? Já te disse que lembrar da vida que eu tive do seu lado é meu passatempo predileto? Que você me ensinou sobre as pessoas, sobre as verdades, sobre futebol, sobre política, sobre justiça, sobre como um prédio sai do chão e chega ao último andar, sobre a lógica da vida?
Já te contei como essas coisas mudaram a forma como eu vejo o mundo? Já te disse como era bom ficar deitada no seu ombro? De como eu me sentia segura? De como eu gostava quando a gente via "cuickócuick" e de como a gente sacaneava, naquele jogo que vai ser para sempre só nosso, "Summerland"? Já te disse que, até hoje, quando eu ouço a sua voz no telefone, meu coração palpita diferente? Que a sua voz, as coisas que você me diz, o jeito que você diz, entram no meu ouvido da forma mais doce do mundo? Que eu adorava quando você me abraçava no meio da noite? Que eu chorava quando a gente fazia amor?
Já te disse que te ver chorar é como pegar uma faca bem afiada e ir passando ela devagarinho pela minha alma? Que eu ainda sonho com você? Com a gente lendo o jornal no chão da sala, tomando café, comendo as "especialidades" que você fazia para mim? Já te disse que eu comecei a escrever este texto umas 300 vezes e nunca consegui terminar porque as lágrimas não deixavam?
Já te disse que as músicas que você compôs no violão são as mais bonitas que eu já escutei? Que eu ouvia sozinha, escondida, quando você estava no trabalho, e elas me faziam chorar? Já te disse que eu adorava quando a gente ia almoçar na casa dos seus pais e suas irmãs ficavam falando de como você era mal- humorada na infância? Eu te olhava, ouvindo a mesa inteira falar de você, e via a mulher que só eu conhecia, que só eu amava daquele jeito tão fundo. E sentia um orgulho enorme. Aliás, e isso eu acho que eu já te disse, eu sinto tanto orgulho de você... Tanto.
Eu queria ver o mundo com seus olhos de criança, chorar e deixar as lágrimas pularem, e não apenas escorrerem. Queria ser indignada como você. Inquieta como você. Justa como você. Bonita como você. Intensa como você. E sabe o que mais eu queria? Ter tido um filho seu. Porque eu queria que você se multiplicasse. Acho que é disso que o mundo precisa. Pessoas bonitas, fortes, inquietas, indignadas, questinadoras, inteligentes. Como você.
Mas tem uma coisa que eu certamente nunca te disse. Por que a gente se separou. Sabe por que eu nunca te disse? Porque eu nunca entendi. Eu não sei o que te afastou de mim, o que me afastou de você. O que eu sei é isto: eu sempre vou te amar. Pelo que você é. Pelo que você foi. Pelo que você será.
Milly Lacombe, jornalista
FRASE DO MÊS
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"
Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe