



Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
Acho que acabo de descobrir porque dois conceitos tão diferentes
podem ser traduzidos numa mesma palavra:
partir.
Um presentinho lindo que acabo de ganhar:
Eu sei que a gente ia ser feliz juntinho
Pra todo dia dividir carinho
Tenho certeza de que daria certo
Eu e você, você e eu por perto
Eu só queria ter o nosso cantinho
Meu corpo junto ao seu mais um pouquinho
Tenho certeza de que daria certo
Nós dois sozinhos num lugar deserto
Eu sei que eu ia te fazer feliz
Dos pés até a ponta do nariz
Da beira da orelha ao fim do mundo
Sugando o sangue de cada segundo
Te dou um filho, te componho um hino
O que você quiser saber eu ensino
Te dou amor enquanto eu te amar
Prometo te deixar quando acabar
Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, por favor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é
"Pedido de Casamento", de Arnaldo Antunes
Esconde-Esconde
Adoro quando você se mostra
Vem de mansinho, se encosta
E deixa escapar nas entrelinhas
Um pouquinho de você
Depois disfarça
Finge que não vê
Sorri
E se esconde de você
Como quem
No fundo, no fundo
Não quer nada além
De me proteger
Um Verso
Arrumei todas as palavras num verso
Consertei os contrapostos do inverso
Paguei todos os impostos do universo
Cancelei os pressupostos do incerto
Só pra ver se transformava em verso
O inverso mais incerto do universo:
Você
"Sabe aquela fase da vida em que você percebe que a casa em que você cresceu não é mais seu lar? É o lugar onde pode largar as coisas, mas a idéia de lar se foi. (...) Você verá quando se mudar. Acontece. Um dia, foi-se. E você sente que nunca mais vai tê-la na vida. É como sentir saudade de um lugar que não existe. É como um rito de passagem, sabe? Você não terá essa sensação de novo até criar um novo lar para você mesmo. Para seus filhos, sua própria família. É como um ciclo ou algo assim. (...) Talvez família seja só isso mesmo. Um grupo que sente falta do mesmo lugar imaginário."
Trecho do filme "Hora de Voltar" ("Garden State")
O Cordel pela Raiz
A Literatura de Cordel é uma das maiores expressões populares de um povo sem muita oportunidade, espaço ou intelecto próprio para manifestar seus anseios, suas dificuldades e seus valores.
É inerente ao homem a necessidade de se expressar e desabafar suas angústias e o cordel nada mais é do que uma ferramenta para este fim. Através de versos cantados ao longo de muitos anos, o cordel tornou-se um retrato histórico, antropológico e social de um povo. É a herança, o capital cultural e a identidade do nordestino que enfrenta a seca, a miséria e o esquecimento, numa sociedade onde é preciso gritar (ou cantar em versos) para ser ouvido na multidão.
A Literatura de Cordel é um instrumento social, a partir do momento em que se torna, muitas vezes, o único meio de divulgação de notícias e informações para os ignorantes, alcançando as camadas mais miseráveis e isoladas da sociedade. Em menores proporções, a Literatura de Cordel ainda insiste em se manter viva e tem ultrapassado fronteiras físicas e sociais, alcançando e, quem diria, conquistando o jovem urbano de classe média. Novas bandas têm surgido e, integrando arranjos modernos à tradicional arte popular, acabam transmitindo a vivência, a cultura e a vida de quem está a quilômetros de distância do seu mundo.
A banda Cordel do Fogo Encantado é um forte exemplo desse intercâmbio cultural. A banda nasceu em Arcoverde, no interior de Pernambuco e, graças ao talento e ousadia dos seus músicos, rompeu todas as fronteiras existentes e, apesar de não possuir contrato com uma gravadora, conseguiu falar a língua do jovem urbano e já conquistou centenas de fãs por todo o Brasil. Exemplos como este semeiam o otimismo e a crença de que o cordel vai sobreviver às interferências globais e manter sua tradição, talvez em seu formato original, talvez mesclando o tradicional com o moderno, mas será sempre o nosso atrevido cordel em sua mais profunda raiz.