



Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas"
Clarisse Lispector
Cadência
Sentou-se na areia para melhor contemplar seus pensamentos e lembrou de tudo o que jamais esqueceria. Um ano inteiro em banho-maria! Ele não a entendia, não sabia, só a queria. Queria muito, não sei o quê, mas com a ânsia de quem não pode esperar para viver uma eternidade. Também, o seu maior dom era mesmo sonhar e ele tinha achado um bom motivo para isso. Não precisava mais nada, nem a correspondência, talvez sequer a existência.
Sentei ao seu lado sem ser percebida e comecei a ouvir seus pensamentos. Nossa, como ele a queria! Ela era a mulher certa, naturalmente viva, brilhantemente vencedora. Podia sentir o seu cheiro de tangerina e o suco da mais doce jabuticaba em seus lábios. Linda. Sonhou com o dia em que ela seria sua e adormeceu sorrindo para a Lua.
Ouvi seus pés hesitantes massageando a areia, logo atrás de mim. Ela também queria. Ainda distante, fechou os olhos para apreciar o êxtase do prazer infinito da sua chegada. Não resisti e, também em êxtase, roubei o amor que só ele merecia.
Só a Lua viu duas estrelas cadentes no deserto daquela noite.