



Sexta-feira, Julho 30, 2004
Sentou-se no metrô ainda meio sonolenta, mas, percebeu um olhar especial, em sua direção. Era ele, com certeza. Após anos de procura, ela havia encontrado o homem da sua vida. Pesquisou diversas maneiras de se aproximar para conversar, mas acomodou-se ao lembrar que são eles, os homens, que devem tomar a iniciativa. Resumiu-se a olhares de canto de olho e desvios tímidos, que eram a sua função.
Olhos se cruzavam e desejos surgiam de ambas direções, durante toda a viagem. Imaginou como seriam seus filhos, onde morariam, os sucessos do dois, as conversas de pai para filho que ele teria, as discussões sobre a educação dos filhos, as segundas luas-de-mel, o dia em que quitariam o apartamento, as viagens para a Bahia. Ele queria se aproximar, não conseguia esconder isso. As estações passavam e ele parecia sempre deixar para a próxima. Percebeu que uma hora tudo isso acabaria e restavam apenas alguns minutos. Passeou por uma última vez nos seus olhos, perguntando-se quem seria aquele "homem-da-sua-vida", e saltou do metrô, consciente da oportunidade que acabara de perder.

Canção Pra Quando Você Voltar
Quando o sol de cada dia entrar
chamando por você
querendo te acordar
vai ter sempre alguém pra receber
dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre alguém pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar
Leoni
Será que vai ter sempre alguém?
Você mesmo. Se você pensa que trabalho, sucesso e novos colegas substituem velhas amizades, você está muito enganada. Sinto por isso, mas você ainda vai sentir muito a minha falta.
Ruídos Urbanos
Perto da minha casa tem um canil, uma Igreja Evangélica, um hospital, uma favela e mil garagens que acionam apitos estridentes por, aproximadamente, 5 minutos, cada vez que um carro entra ou sai delas. Ah, um detalhe: tudo isso funciona 24 horas por dia (nem mesmo a favela e seus tiros páram).
Serviço de Utilidade Pública
(O texto é grande, mas, necessário.)
"A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus""
Minha ida para Salvador marcou o princípio da minha ascensão na Igreja Universal. Fui escalado para ficar na sede, na ladeira do Aquidabã. A igreja era um fenômeno de público. Todos os dias centenas de Fiéis lotavam o templo. Muita gente esperava a vez de entrar e, finalmente, receber nossas bênçãos. Espalhada pela ladeira, a multidão causava transtornos no trânsito e, muitas vezes, fechava as vias de acesso à Baixa do Sapateiro e à Barroquinha.
Declaramos guerra às religiões africanas, sustentáculo da fé baiana. Guerra à Igreja Católica, nossa maior inimiga. E guerra até mesmo às igrejas protestantes, como a pentecostal Deus é Amor, que nós tachávamos de "candomblé evangélico", e a Assembléia de Deus, para nós um bando de "crentões" e "fanáticos". Nas rodinhas de pastores sempre aparecia alguém contando alguma piada de profundo mau gosto sobre as mulheres da Assembléia de Deus, que, diziam, não se depilavam e não usavam desodorante por considerarem pecado. A Igreja Universal, onde era proibido proibir, era apresentada como o único caminho da felicidade. A verdadeira igreja de Cristo ou "o vinho novo", como gostávamos de anunciar. Jogávamos pesado nos programas de televisão. Quebrávamos imagens de santos católicos e, durante os cultos, queimávamos as roupas de candomblé e colares de miçangas levados pelos filhos-de-santo que se convertiam. O povo vibrava. Nós o fazíamos vibrar. Não é preciso repetir aqui que o povo gosta de pão e circo. Desenvolvi um estilo. Defini um discurso simples, mas poderosamente convincente para levar a mensagem da Igreja. Isso me rendeu o cargo de terceiro pastor no Aquidabã. Acima de mim, apenas os pastores Paulo e Gonçalves. Líder e vice-líder. A promoção me conferia um status. Por exemplo, passeia conduzir reuniões com centenas de pessoas, além de apresentar programas nas rádios Cruzeiro e Excelsior e participar do Despertar da fé, na TV Itapoan. Nos fins de semana, viajava pelo interior do estado fazendo campanhas de evangelização, lotando templos por onde quer que passasse.
Considerando que eu estava na Igreja há pouco mais de um ano, minha escalada era meteórica. Meus dias de dormir sobre assoalho gélido e bancos de madeira haviam chegado ao fim. Logo passei a dividir um confortável apartamento com o pastor Gonçalves e outros dois pastores. As roupas surradas que eu usava deram lugar a ternos de grife e, num piscar de olhos, me vi freqüentando restaurantes finos e viajando de avião. A primeira vez que voltei a São Gonçalo desde que me mudara para a Bahia foi memorável. Cheguei à Boa Vista com uma mala cheia de presentes para minha família e amigos. Naquele dia, transformei-me na sensação da rua. Velhos conhecidos e vizinhos vieram só para me ver. Do alto do meu pedestal, eu criticava a poeira e o calor daquele lugar. E exaltava as maravilhas da civilização moderna. De como era confortável viver com telefone. Assistir à televisão em um aparelho que mostrava dois canais ao mesmo tempo. E, o que é o progresso, ter na cozinha uma geladeira que não precisava abrir a porta para tirar a água. Alguns me chamaram de ladrão, mas eu não dei ouvidos às "vozes da inveja", como diziam meus pais, orgulhosos do filho que estava na Bahia falando para multidões em rádio e televisão. "Graças a Deus", diziam eles, "nosso filho não é como Ney ou Denilton, que só dão desgosto aos pais". O sucesso da Igreja e dos programas de rádio e televisão estava baseado na fórmula infalível criada pelo bispo Macedo: a terapia espiritual. Trabalhávamos diretamente com as emoções das pessoas. Por isso muitas pessoas afirmam que quando ouvem o rádio sentem como se o pastor estivesse falando diretamente com elas. Na nossa programação comentávamos, ao som do piano de Richard Clayderman ou da flauta de Zamfir, os problemas que afligem a maioria dos humanos: desemprego, vícios, doenças, problemas conjugais e financeiros. Depois de um debate no qual discutíamos os efeitos desses problemas na vida das pessoas, apresentávamos a solução para tudo isso como uma única visita a um dos endereços da Igreja. Uma vez que a pessoa ia à igreja, ela era orientada a fazer uma corrente de doze semanas. Corrente na qual ela viria a se tornar emocionalmente presa. Os que quebravam essa corrente imediatamente passavam a ter visões e ouvir vozes. Como Hollywood, nós sabíamos explorar o medo infantil que as pessoas têm da figura do diabo. Informado do sucesso na Bahia, o bispo Macedo resolveu marcar uma concentração no maior estádio de Salvador. Ele havia acabado de lotar o Maracanã. E estava disposto a lotar todos os estádios das grandes capitais. Dois meses antes começamos a trabalhar na promoção do que seria o maior de todos os nossos desafios: lotar o Fonte Nova Queríamos mostrar aos padres, pastores, pais e mães-de-santo da Bahia que o reinado deles havia acabado. Éramos nós quem dávamos as cartas agora. Também queríamos mostrar aos pastores da própria Universal em outros estados que nós, da Bahia, éramos os melhores. Todos os pastores do interior ficaram incumbidos de alugar um ônibus e levar o maior número de pessoas possível. Vinhetas nas rádios e nas televisões, outdoors espalhados pelo estado prometiam curas e soluções. Durante as reuniões na igreja, distribuíamos envelopes e fazíamos com que os fiéis colocassem ali o que chamávamos de "oferta de sacrifício" (algo como o salário do mês) e um pedido de oração, que o bispo levaria para Israel, a Terra Santa. No dia da tão propalada concentração, uma multidão já se aglomerava ao redor do estádio muito antes de os portões serem abertos, às nove da manhã. Quando, enfim, o Woodstock religioso começou, milhares de pessoas, pisoteando velhinhas e crianças, travaram uma disputa agressiva para obter um bom lugar para ouvir o bispo e receber dele os milagres, que era o que interessava àquela gente. Naquela época em que o termo yuppie estava em voga, o bispo Macedo, portando Rolex, Ray-ban, Mont Blanc e a sempre presente Hermès, subiu no palanque que fora especialmente armado para ele no centro do gramado. Não conseguia esconder sua alegria. O estádio da Fonte Nova estava completamente lotado. Repetia-se em Salvador o fenômeno do Maracanã, no Rio. Naquela tarde, depois de recolher os envelopes com o "sacrifício" e com os pedidos de oração, que seriam levados para o monte das Oliveiras, em Jerusalém, o bispo pediu aos seus seguidores baianos uma oferta especial para comprar uma emissora de rádio em Salvador, assim como seus fiéis cariocas o haviam contemplado com a rádio Copacabana. - Será que os cariocas têm mais fé que os baianos? - perguntou o bispo à multidão. NÃO! - a resposta retumbou como um trovão. As ofertas vieram em forma de dinheiro e jóias. Passamos três dias trancados em uma sala contando os sacos de dinheiro levantados no Fonte Nova. No final, o dinheiro foi depositado na conta da Igreja, no Bradesco, em Salvador. O ouro seria levado para o Rio de Janeiro e transformado em barras. Quanto aos pedidos de oração que seriam levados para Israel - bem, eles foram queimados na praia da Boca do Rio. Quando eu era um simples fiel, não imaginava o que se passava nos bastidores, depois que a cortina cai. Os atos de alguns pastores logo me levaram a descobrir que a Igreja Universal nada mais era do que uma empresa com fins lucrativos como qualquer outra na ciranda financeira. A única diferença era o produto vendido: sal que tira vício, lencinhos molhados no "vinho curativo" --o conhecido K-Suco--, água da Embasa, que dizíamos ter vindo do Rio Jordão, azeite Galo, que dávamos ao povo como legítimo óleo ungido proveniente de Jerusalém, e uma longa lista de outros produtos tão falsos quanto as gotas de leite extraídos dos seios da Virgem Maria, que eram vendidas na Europa, nos primeiros séculos, aos otários em busca de milagres. Como ser pastor era antes de tudo uma "vocação" e jamais uma "profissão", não tínhamos vínculo empregatício com a Igreja Universal. Nossos salários eram pagos em cash, isentos de qualquer taxa ou imposto. O valor desses salários variava: cada caso era um caso nas leis do Reino. Apesar de sermos estritamente proibidos de comentar nossos ganhos uns com os outros, sabíamos da injustiça salarial. Pois enquanto dirigentes de igrejinhas de periferia ganhavam salários minguados e insuficientes para sustentar a família, os pastores notáveis trocavam de carro a cada ano e passavam fins de semana em resorts acompanhados de suas belas mulheres rajando Chanel e portando bolsas Luis Vuitton."
Justino é ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus e atualmente mora em Nova York. O texto acima faz parte do livro Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus, publicado em 1995.
Another one:
"Welcome to the 21st century, where the world's best golfer is black, the world's best rapper is white, the Swiss hold the America's Cup, the French call the Americans arrogant and the Germans don't want to go to war."
Roy H. William
Frase do dia:
"De médico, louco e publicitário, todo mundo tem um pouco."
O dia em que precisei pedir esmola.
(Ou O Conceito de solidariedade nas diferentes capitais do Brasil)
Morar numa metrópole é uma situação invejável para muitos, é onde as coisas acontecem, as novidades, as feiras, os livros, as melhores faculdades, tudo está aqui. É, também, onde acontecem os protestos, a violência, o tráfico... E é com isso tudo que o pobre imigrante (nesse caso, a escritora que vos fala) se defronta no quotidiano da cidade grande.
Sair de uma capital para outra de um mesmo país, parece não ser lá uma grande mudança de rotina, mas, o povo que faz uma cidade grande nunca é o mesmo que habita outra; descobri isso na prática. Não sei se é porque, como todos no mundo falam, o povo baiano é o mais alegre e caloroso do planeta, ou se é porque estou sozinha pela primeira vez na vida, mas ainda me espanto com a frieza da cidade maravilhosa. Também, de um povo que vive em meio a tiroteios e feriados delegados por rifles e metralhadoras não se pode esperar solidariedade e empatia de graça.
Baiano que é baiano sorri, se envolve no problema alheio, faz de tudo para ajudar. E, como baiana desde quando nasci, esperei encontrar isso aqui também. Quebrei a cara. Minha mãe sempre diz que o problema nunca é o outro, e sim a expectativa que criamos em relação ao outro. Logo, a culpa da decepção com os cariocas deve ser toda minha, e eu, na condição de réu, confesso o meu crime: esperar solidariedade e empatia nessa terra de gigantes.
Querer uma coisa e conseguir. Estou ficando mal acostumada com isso.
Trabalho, casa, final de semana, compromissos, contas a pagar, barzinho com amigos.
Nunca achei que fosse ficar tão feliz com uma rotina.
Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa
Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha
Eu tô carente, eu sou manchete popular
Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Dessa eterna falta do que falar
Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha
Que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual
Se ninguém olha quando você passa
Você logo diz: "Palhaço!"
Você acha que não está legal
Corre todos os perigos, perde os sentidos
Você passa mal
Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa
Não compensa, não
Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha
Eu tô carente, eu sou manchete popular
Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Dessa eterna falta do que falar
Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa
Vida louca vida, vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida, vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa
Cazuza
(Uma homenagem especial)
Aonde quer que eu vá
Olhos fechados
Pra te encontrar
Não Estou ao seu lado
Mas posso sonhar
Aonde quer que eu vá
Levo você
no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá
Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
Longe daqui
Longe de Tudo
O sonhos vão te buscar
Volta pra mim
Vem pro meu mundo
Eu sempre vou te esperar
Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
Paralamas do sucesso