Quinta-feira, Abril 29, 2004

A paixão crucifica a humanidade até hoje

¿Foi como aconteceu¿, disse Karol Wojtyla depois de assistir ao filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Independentemente da crença em relação à existência de Deus e da veracidade da história transcrita na Bíblia (pelo próprio homem!), as cenas do filme são mais dantescas que o próprio inferno de Dante Alighieri - onde os violentos eram condenados a nadar num rio de sangue sendo aporrinhados por monstros demoníacos. O que se vê na ¿modesta¿ produção de 30 milhões de dólares de Mel Gibson é uma arena recheada de sadismo e crueldade. Sacerdotes sádicos buscando um prazer quase sexual no sangue que escorria do corpo de um filósofo-curandeiro que, provavelmente, nunca havia praticado o mal. Havia ali uma platéia cega e sensacionalista se regozijando de uma moeda lançada. Afinal, Jesus estava apenas revolucionando seu tempo, assim como Chico Mendes, Che Guevara ou Nelson Mandela - embora não tenham sido punidos de forma bárbara, também receberam sinal vermelho por suas personalidades e ideologias marcantes.

Há mais de dois mil anos é impossível se fazer justiça nesse mundo. Pôncio Pilatos, o governador da Juréia, queria mesmo era lavar suas mãos punindo qualquer um dos dois - Jesus ou Barrabás -, para que tanto o povo quanto os líderes judeus ficassem satisfeitos. Barrabás era um doente, um homicida qualquer - era festa de Páscoa e, por escolha do próprio povo, Pilatos tinha o costume de soltar um preso. Pilatos pediu a Herodes, governador da Galiléia, que tomasse uma decisão, mas este, embora interessado nos milagres de Jesus, vivia nas orgias e acabou não dando importância à situação. Pilatos jogou dados e Jesus foi chicoteado, pior, dilacerado e crucificado até a morte. O filme A Paixão de Cristo tem lá seus méritos, mas não justifica os exageros. Segundo o diretor, extremamente católico, o filme precisava ser realista. Ok! Mas quem gosta de ver, ouvir ou falar sobre as verdades do mundo e da vida? Basilicata, no sul da Itália, região onde foram feitas algumas cenas, é uma região bárbara - e pensar que o mesmo adjetivo também classifica esse longa-metragem.

A violência não é apenas fruto da desigualdade social e do atual regime capitalista em que o mundo se encontra. Segundo psiquiatras, a violência é, também, uma reação que está associada à ira devido a defeitos, erros e sofrimentos do ser humano, podendo até mesmo estar relacionada a alguma patologia. Parece masoquismo, mas o ser humano precisa sentir falta das coisas que está acostumado a ter para evoluir. E, com uma venda nos olhos, ele busca ser possuidor de todas as coisas. Busca-se desesperadamente aquilo que vemos, sendo que o que realmente a humanidade precisa são das coisas que estão tácitas. O homem só terá êxito na vida quando aprender o que é o quinto elemento: o altruísmo. Essa é a mais difícil das posses, pois o amor incondicional é um amor materno, paterno, de irmãos, ou seja, verdadeiro. No mundo contemporâneo não se ama de graça. O sentimento se tornou mercadoria e ele tem seu preço. A hipermodernidade obriga o indivíduo a fazer manutenção de uma imensa campanha de marketing das coisas que vêm do coração. A próxima geração virá com um chip que diz respeito à obrigação da conveniência. O mais difícil mesmo será tentar quebrar esse novo paradigma que, infelizmente, é deprimente. Édipo precisou ficar cego para enxergar a própria realidade. Logo, enforcou-se por não suportá-la. Psique precisou perder seu amor, Eros, para dar valor à sua beleza interior. Tragédias. Todo homem tem sua tragédia. O que seria deles sem suas tragédias?

Por Carol W.


Sophia  as 1:03 PM Diga a Verdade:


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