



Sexta-feira, Setembro 26, 2003
Olha só que delícia de presente ganhei hoje:
ESTE MOMENTO
Ah, esse sorriso que encanta,
tornando bonito este momento,
pois, daqui, sinto o alento
de uma linda fada que canta.
Vailton Júnior - 26/09/03
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

FRASE DA SEMANA
"Não falta um sapato velho para um pé doente."
Minha avó comentando a amizade entre meu pai e um cara tão estranho quanto ele.

Observação
Definitivamente, diretor de criação tem que ser um dos sócios da agência de publicidade. Não dá pra administrar e mandar na galera com toda a bola se você não pode impor suas idéias ao dono da agência. Imagina você defender um conceito até a morte e, de repente, chegar o chefão e desprezar completamente tudo o que você disse, na frente dos seus subalternos? assim, não rola...
O excesso esforço criativo já está surtindo efeito em mim. Até sonhando invento paranóias. Essa noite, sonhei com ele, lindo, exuberante, vitaminado, o pica-pau completamente nu! Tenho até medo de descobrir o silogismo que há por trás desse sonho. Só sei que ninguém merece!

O REI QUE NÃO TINHA UMA ORELHA
(conto legítimo da vovó)
Era uma vez, um rei que guardava um enorme segredo. Ele não tinha uma orelha. Vaidoso, o rei escondia seu defeito debaixo de uma peruca e disfarçava de todo o jeito. Em todo o palácio, a única pessoa que sabia do seu segredo era um leal barbeiro ancião que cortava o cabelo do rei.
Um dia, o barbeiro real morreu, levando consigo o segredo do rei. Para substituí-lo, o rei escolheu um sobrinho distante do tal barbeiro e, depois de trancar-se com ele numa sala isolada do castelo, revelou-lhe o seu segredo. O rei enfatizou que se o novato barbeiro ousasse dividir o segredo do rei com alguém, seria enforcado imediatamente.
O novo barbeiro, temendo a morte, obedeceu o rei fielmente, até o dia em que não agüentou mais a pressão de guardar aquele enorme segredo. Ele correu até um lugar deserto, cavou um buraco e gritou bem alto: "O rei não tem uma orelha! O rei não tem uma orelha! Por isso, ele usa peruca vermelha!"
Após alguns meses, nasceu no local um pé de bambu. Um lavrador que descansava por perto cortou o bambu e fez uma flauta, para se distrair. E, qual não foi a surpresa, quando o lavrador soprou a flauta e ouviu uma irônica melodia: "O rei não tem uma orelha! O rei não tem uma orelha! Por isso, ele usa peruca vermelha!"
No dia seguinte, para desespero do rei, todo o reino estava tocando flautas de bambus com a já famosa melodia.
Foi assim, como o jovem barbeiro que desabafou o segredo do rei num buraco, que me senti hoje, depois da minha sessão de terapia. :)

Tem coisas na vida que a gente nunca supera. Ter nascido poeta é uma delas.
Escrever algo mais hoje? Escrever pra quê? Palavras tristes não servem para muita coisa...
Loucura, segundo Aurélio: 1. Que perdeu a razão, doido, maluco (...) 4. Esquisito, excêntrico.
A partir de hoje, sou uma louca assumida: estou fazendo terapia (se um terapeuta ler isso, cassa meu acesso a qualquer blog!). Não é muito confortável sentar na frente de um estranho e contar toda a sua vida, algo que você já sabe de cor (sabe mesmo?). Ainda mais quando você tem certeza que, se deixar de pagar a sua terapia, ninguém vai se preocupar com você e que, fora do horário de consulta, seu psicólogo não está nem aí pro que rola na sua vida. Mas, é interessante observar como a história da sua vida pode ser contada por quem mais a conhece e perceber verdades que ¿fogem sem querer¿ da sua boca, como bolhas de sabão que saem em um arroto e podem explodir como uma bomba, ao invés de simplesmente estourarem.
Engraçado como as pessoas têm receio em assumirem que freqüentam o divã de um psicólogo. Eu mesma me peguei nessa situação, hoje. Um amigo perguntou aonde eu ia e, gaguejando, respondi: "vou ali". Não que eu realmente ache que terapia é coisa para louco. Mas, teoricamente, quem procura um psicólogo tem um problema a resolver. Logo, dizer que vai ao psicólogo é assumir que tem problemas e, segundo uma tese extraída das profundezas das minhas paranóias, ninguém gosta de se aproximar de alguém que tem problemas ou tristezas. Pelo contrário, as pessoas só se aproximam das outras em busca de um benefício próprio. Sei que soa cruel, mas, olhe ao seu redor. Se você quiser se divertir ou bater papo, vai procurar o seu amigo alto astral e feliz ou vai insistir pela presença daquele amigo deprimido e de mal com a vida? Beleza, status, companhia, aprendizado, dinheiro... Consciente ou inconscientemente, o ser humano tem um instinto interesseiro. E, se quisermos conviver bem em nosso ciclo social, precisaremos saber lidar bem com isso.
Quanto à terapia, o que me deixou insegura é que minha psicóloga é estagiária e, apesar de não ter nada contra estagiários (hei, eu sou uma!), sinto-me uma cobaia. Semana que vem, tô lá de novo, mas, imagina se ela erra algo e me deixa biruta?! Se bem quem, para me deixar ainda mais paranóica, seriam necessários anos de terapia. ;)
Quem inventou o ponto e vírgula?
Pergunta para quem inventou o amor.
Ambos têm dois conceitos em oposição:
Um nem é ponto, nem vírgula
O outro nem é amizade, nem paixão
Ambos, no caminho, com algo se encontram,
Não sendo vírgula, não é ponto
Não sendo início, não é fim
Não é meu amigo, mas gosta de mim
Não está comigo, mas está a fim.
Está sempre no meio de tudo
Mas não é em qualquer lugar que se encaixa
Ambos cabem numa caixa
Ambos não caberiam em nada
Ambos parecem não ter sentido
Ambos parecem, pra quem está sentindo.
Ambos sem início nem fim
Ambos sem pra quê nem pudor.
E, com o amor, eu explico o ponto e vírgula
E, com um ponto e vírgula eu tento explicar o amor.

Longas e Curtas
O Milagre do Cinema Brasileiro
Esta semana, eu assisti a duas obras que me provam a existência de uma "Evolução Roteirística do Cinema Brasileiro":
Lisbela e o Prisioneiro, que reuniu qualidade no elenco (Selton Mello, Débora Falabella, Virginia Cavendish, Bruno Garcia, Tadeu Mello, André Mattos, Lívia Falcão, Marco Nanini), nos roteiristas (Arraes, Jorge Furtado e Pedro Cardoso), no diretor (Guel Arraes) e até na trilha sonora, com participação de Caetano Veloso e da banda que, atualmente, traduz uma revolução na Música Popular Brasileira, Cordel do Fogo Encantado.
O segundo filme é um curta produzido pela Zepelin (produtora Gaúcha) que assisti domingo, por acaso, na Tv Cultura, chamado Branco. Achei impressionante como um curta conseguiu prender minha atenção (apesar do sono) e me envolver a ponto de me levar às lágrimas, no final. Pena que não possamos locar esse formato de filme nas locadoras da Bahia.
É satisfatório perceber que os roteiristas brasileiros já sabem fazer arte sobre sua gente e para sua gente. nada daquela leva de documentários históricos e lascivos da era do cinema precário e sem incentivos. E sim, filmes leves, gostosos de assistir e com bonitas lições (apesar do decepcionante Desmundo e do fraco Deus é Brasileiro). Entre os melhores, inevitável citar Bicho de Sete Cabeças, Cidade de Deus, Carandiru, Bossa Nova, A Partilha, Quatrilho, Amores Possíveis, Amarelo Manga (que ainda estou louca para ver!) e muitos outros que, se Deus quiser (e os produtores permitirem) ainda estão por vir.
O que faz uma pessoa se apaixonar por outra pessoa que se sabe ser comprometida? É engraçado como tenho me visto construir uma admiração especial por alguém que eu sei ser impossível. Eu bem sei o meu lugar e não tenho grandes pretensões. Só acho bonita e impressionante essa minha capacidade de querer bem a alguém que não faz nenhum esforço para isso. E eu não fujo disso. É tão revigorante e enriquecedor saber admirar alguém sem exigir nada em troca! Ainda bem que um cara chamado Platão criou uma forma de amor que se encaixa no meu contexto e não me traz nenhum sentimento negativo!