



Quarta-feira, Julho 30, 2003
Trilhos
A Karl Schleu Neto
No carro, o rádio tentava inutilmente disfarçar silêncio do tempo que separava aquelas duas vidas. Afogados numa angústia de histórias infinitas vividas à distância, não tinham palavras para retornarem no tempo. Um mundo de projetos e sonhos sufocados pelo sofrimento emergia entre os dois corpos que não ousavam trocar olhares mais profundos.
Quem adivinharia que a vida ainda guardara aquela surpresa, depois de tantos anos?
Tudo teria sido tão perfeito... Agora, eram como trilhos que estão sempre juntos, mas nunca se cruzam. E nada os faria voltar à ferrovia de onde partiram.

Adolescente por lei
Uma história de amor impossível no Turcomenistão
Turcomenistão? A moça da agência de turismo achou que era brincadeira. Velho doido. Chamou o segurança. Tinha mais o que fazer. Velho ou não, ele preferia dizer que estava na fase da inspiração. Leu essa definição no jornal e resolveu adotá-la. Um homem, de nome esquisito, presidente de um país de nome esquisito, decretou que a adolescência se estenderia até os 25, a juventude até os 37, a maturidade até os 49, os anos proféticos até os 61, e daí em diante os anos da inspiração. Ele que tinha 70 anos se sentiu realizado. Estava passando pelos anos da inspiração. Velho mesmo, por lei, só depois dos 85. Finalmente alguém conseguiu traduzir em norma legislativa aquilo que os hormônios dele já haviam decretado faz tempo. Tinha 70, mas não era um velho. Não suportava a ditadura da idade. Fez as malas. Decidiu se mudar para esse país. Como era mesmo o nome? Turcomenistão. Tirou do banco a poupança que lhe restava. Na segunda viagem à agência de turismo teve mais sorte. Comprou a passagem. Foi embora. Por ocasião do seu aniversário de 80 anos mandou uma carta. A primeira desde que havia partido. Estava feliz, mais jovem do que nunca. Contou que só uma vez sentiu saudades do Brasil. Foi quando ele se apaixonou loucamente por uma mulher de 24 anos. Mas ela era, por lei, apenas uma adolescente.
por Andrea Siqueira

Ah, queridos e fiéis leitores, esqueci de dar a minha satisfação aqui! Ainda estou sem Internet em casa, por isso não tenho postado diariamente. Mas, espero que seja temporário. Quanto à minha displicência de não escrever textos próprios, justifico. Estou aproveitando minhas férias pra fazer tudo o que sempre sonhei: aprender violão, dança do ventre, crochê, windsurf, curtir a vida, descansar, ir na praia, ler muito e ainda aprender sobre o budismo (quem sabe minha nova religião?)!
Enfim, tô muito feliz e vivendo bastante, por isso não sobra tempo pra escrever! Isso, eu espero que não seja temporário :)
Mas, pode deixar, que vou me dedicar à escrita também e, assim que der, mando um pombo-correio postar alguma paranóia minha aqui!

Nem nesse Brasil louco, alguém merece ter de fazer uma faxina como resgate!
Sophia
Gata Borralheira
A história do seqüestro que não deu em nada
Foram três semanas de planejamento. Ter um plano astucioso era importante.
Conheciam os horários da casa. Às nove horas, saía o carro preto, às dez horas o
prateado. A menina ia para a escola sozinha, a pé. Dia sim, dia não, o irmão
a acompanhava. O trajeto era curto. Dava para avistar o portão do colégio da
janela da casa. Bem vestida, bem penteada, lá ia a menina em uma manhã
ensolarada de um dia não. Sobe rápido nessa moto e cala a boca, senão eu te
mato. A menina obedeceu. Deixou cair uma lágrima, mas não deu um pio. Poucos
metros à frente trocaram a moto por um carro e, depois, por uma kombi. Ela
nunca tinha andando de kombi. Fica quietinha, senão você se machuca. Foi o
máximo que disseram à menina. À mãe falaram absurdos. Eu não tenho dinheiro,
sou a empregada da casa. Como pode uma mãe tão sórdida? No quinto
telefonema, cansados de ouvir a mesma ladainha, resolveram perguntar à
menina se o que a mãe dizia era verdade. Sim, moço, minha mãe é faxineira e
meu pai, jardineiro, moramos no quarto dos fundos. Droga, ainda gastamos
dinheiro com as ligações. Tá bom, dona, vamos devolver sua filha sem resgate
mesmo. Já iam entrando no carro, os dois e a menina. Foi quando o mais
agressivo reparou na bagunça que estava aquele cativeiro. Lama, sujeira, pó.
Ô menina, passa uma vassoura aqui. Rápido, hein, senão eu te mato.
por Andrea Siqueira
Mais um texto perdido na minha arca encantada. Pena que eu não sei o nome do autor. E você, já tentou alguma vez sair e deixar as máscaras em casa?
Alexandre
(Até hoje ele não fala comigo, serei obrigada a chamar o Sílvio Santos: "Você perdoa, Alexandre? Em nome do amor, responda para todo Brasil" :-)
Um dia você acordou no escuro e tateou a sua volta, à procura das suas máscaras. Não, você não podia acender as luzes sem colocar as suas máscaras e correr o risco de enxergar tudo aquilo que você pensava ser... mas não era. Se, pelo menos, você as encontrasse, então poderia, ao acender as luzes, pensar que gostava do que via, poderia sorrir, pensando que o mundo, finalmente, estava em seu devido lugar. Mas, nesse dia, você tateou, tateou... e as máscaras não estavam lá. Elas já eram muito velhas e gastas para enganar alguém, principalmente, você mesma. Então , com certa dificuldade, você acendeu as luzes e relutou para encontrar seus olhos no espelho. E lá estava sua velha máscara se desmanchando na tristeza dos seus olhos. Dos seus olhos então sinceros, covardes, humanos, pequenos, tristes, tão tristes. Dos seus olhos que viam antigos momentos naquele espelho, irreversivelmente passando sem que você pudesse pular para dentro deles e salvar a flor arrancada, com toda a pureza do seu coração pecador. Por isso, você tocou o espelho e sentiu o espelho tão frio, mas o espelho era apenas você. Você que perdeu o sorriso do seu amigo, simplesmente, por medo de tirar a máscara e deixar seu amigo enxergar; simplesmente, por acreditar que ainda podia fechar a última das últimas portas sem desconfiar que o seu amigo já morava lá, desde a primeira vez que você o encontrou. Por isso, agora, você está saindo para o mundo, sozinha, sem máscaras, aprendendo a ser você para, então, quem sabe um dia, aprender a ser amiga. Por tudo isso: eu sinto muito, Alexandre..
RÓTULOS
Seria muito bom se as pessoas fossem julgadas pelo que elas são. Mas não é praxe. Geralmente as pessoas são julgadas pelos rótulos que ganharam vida afora, e principalmente pela fidelidade que mantém a eles: se alguém é simpático, tem que ser simpático a vida inteira; se alguém é mão-aberta, que promova bocas livres até o fim dos seus dias, e se é cosmopolita, que não invente de mudar para um sítio de uma hora para outra. Nossa credibilidade está associada à continuidade dos nossos hábitos, pois isso deixa a todos mais seguros, conhecendo melhor o terreno em que estão pisando.
Santa mediocridade. Não há nada mais empolgante do que protagonizar uma mudança. O que passa por instabilidade é, na verdade, uma avaliação individual constante, que nos faz pensar sobre quem somos e o que desejamos para nós amanhã - e chegando no amanhã, reavaliar tudo de novo.
Inevitável citar Lula, o homem que nunca foi íntimo de etiquetas, e no entanto sempre foi o mais etiquetado dos mortais. Rótulos? Carregou inúmeros: comunista, radical, proletário. Lula tinha uma barba preta, Lula vestia camisetas, Lula era um incendiário ao microfone. Era com esse Lula que todos estavam acostumados, até que ele arrancou um por um os rótulos que o estigmatizavam e ressurgiu numa versão paz e amor, com a barba bem aparada e ternos bem cortados, muito menos comunista, muito menos incendiário. Um novíssimo Lula, e ao mesmo tempo o conhecidíssimo Lula, porque se trata da mesmíssima pessoa.
Bem que se tentou dizer que Lula não era confiável por causa das mudanças em seu temperamento e fachada, mas não colou. E não ter colado é prova de avanço da nossa sociedade. Se Lula mudou tanto assim, ninguém ainda realmente sabe, mas tudo indica que está sendo honesto nesta nova versão, como foi em todas as outras. E já começa dando bom exemplo: mudem! Mudem dos 18 para os 30, mudem dos 30 para os 50, mudem, porque desconfiado a gente tem que ficar de quem não muda jamais. São tantas as informações e vivências que absorvemos durante uma única vida que é impossível que elas não nos façam refletir e alterar nossa rota. Infeliz de quem passa a vida toda sendo fiel ao que os outros pensam a seu respeito.
Martha Medeiros
Conversa de 3 amigas, de madrugada, numa cama de casal, depois de um super show de Los Hermanos que rendeu risos, alegria, 'saldos positivos' (se é que você me entende!) e muito o que falar! Em meio a paranóias, ilusões e algumas verdades, surge (inspirada por forças ocultas) uma enquete inusitada:
O que seria melhor: ser trocada por uma mulher gostosona ou por uma guria bizarra?
Na minha opinião, com certeza, ver o dito cujo com uma criança feia é muito mais revigorante e, diria até, engraçado. É a pura sensação de que, não importa o que tenha acontecido, você saiu ganhando!

Essa vida sem Internet anda complicada...
Mas, darei um jeito de continuar postando minhas paranóias aqui.
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
espera que o sol já vem
Tem gente que está do mesmo lado que você,
mas deveria estar do lado de lá
tem gente que machuca os outros
tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
veja nossa vida como está
mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
confie em si mesmo
quem acredita sempre alcança
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
mais uma vez, eu sei
escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
espera que o sol já vem
Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
acreditar no sonho que se tem
ou que seus planos nunca vão dar certo
ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
tem gente que não sabe amar
mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
confie em si mesmo
quem acredita sempre alcança
Quem acredita sempre alcança,
quem acredita sempre alcança,
Fragmentos de um amor do fundo da gaveta
Meu namorado tem um gostinho de jabuticaba
Tem um sorriso nos olhos
E uma alegria que nunca acaba
(...)
Acabou.
Era uma vez, uma boneca de pano
Que, aos poucos, foi se dando
E, aos poucos, desfiando
Até que, um dia, morreu.
Menina Má
Eu sempre fui contra guardar sentimentos. Se é para rir, chorar ou espernear de raiva, faço tudo na lata, extravaso tudo mesmo. Posso irritar muita gente com isso, mas, assim me irrito menos e acho até que reduzo as chances de eu ter alguma doença psicossomática (até mesmo um câncer!) futuramente.
Mas, confesso que venho descobrindo a inegável satisfação de sentir o gostinho amargo da vingança. O prazer de mandar alguém se fuder do jeitinho que você planejou e não se arrepender depois merece ser assumido nas vias da Internet. É o lado animal do ser humano, que a gente sufoca todo dia, mas, que vale a existência, se o mostrarmos de vez em quando.
Monopólio ¿ Os mais fortes fodendo com o resto
Agora, todo mundo pode escolher a operadora que quiser, na hora de fazer ligações DDD e DDI do celular. Isso causou uma redução de 65% no valor das ligações DDI. Ou seja, por causa da livre concorrência, as empresas reduziram 65% do preço que cobravam e mesmo assim, continuam tendo um bom lucro. O que, na minha humilde ignorância, acredito que só prova o que todo mundo já sabia: só tem filho da puta nesse mundo!
'Naquele momento, Maria aprendeu que certas coisas se perdem para sempre. Aprendeu também que existia um lugar chamado 'longe', que o mundo era vasto, sua aldeia era pequena, e as pessoas mais interessantes sempre terminavam indo embora.'
Do Livro Onze Minutos - Paulo Coelho

O QUE É QUE ELE VÊ NELA?
E o que é que ela vê nele? Nossos amigos se interrogam sobre nossas escolhas, e nós fazemos o mesmo em relação às escolhas deles. O que é, caramba, que aquele Fulano tem de especial? E qual será o encanto secreto da Beltrana? Vou contar o que ela vê nele: ela vê tudo o que não conseguiu ver no próprio pai, ela vê uma serenidade rara e isso é mais importante do que o Porsche que ele não tem, ela vê que ele se emociona com pequenos gestos e se revolta com injustiças, ela vê uma pinta no ombro esquerdo que estranhamente ninguém repara, ela vê que ele faz tudo para que ela fique contente, ela vê que os olhos dele franzem na hora de ler um livro e mesmo assim o teimoso não procura um oftalmologista, ela vê que ele erra, mas quando acerta, acerta em cheio, que ele parece um lorde numa mesa de restaurante mas é desajeitado pra se vestir, ela vê que ele não dá a mínima para comportamentos padrões, ela vê que ele é um sonhador incorrigível, ela o vê chorando, ela o vê nu, ela o vê no que ele tem de invisível para todos os outros. Agora vou contar o que ele vê nela: ele vê, sim, que o corpo dela não é nem de longe parecido com o da Daniella Cicarelli, mas vê que ela tem uma coxa roliça e uma boca que sorri mais para um lado do que para o outro, e vê que ela, do jeito que é, preenche todas as suas carências do passado, e vê que ela precisa dele e isso o faz sentir importante, e vê que ela até hoje não aprendeu a fazer um rabo-de-cavalo decente, mas faz um cafuné que deveria ser patenteado, e vê que ela boceja só de pensar na palavra bocejo e que faz parecer que é sempre primavera, de tanto que gosta de flores em casa, e ele vê que ela é tão insegura quanto ele e é humana como todos, vê que ela é livre e poderia estar com qualquer outra pessoa, mas é ao seu lado que está, e vê que ela se preocupa quando ele chega tarde e não se preocupa se ele não diz que a ama de 10 em 10 minutos, e por isso ele a ama mesmo que ninguém entenda.
Por Martha Medeiros
Será best-seller?
Homem perde um Picasso e o recupera no metrô de Nova York
Era um homem comum. Outro, no meio de tantos com valises pretas na mão. Estava apressado e parecia levado pela multidão em sua volta. Chegou antes do horário. Comprou o bilhete. Fumou um cigarro. O metrô chegou carregado das estações anteriores. Ele entrou. E só então percebeu que a maleta que tinha nas mãos, não entrara junto com ele. Estava encostava à uma coluna lá fora.
Era uma valise comum. Preta. Com alça pequena. Cheiro de couro. Estava encostada à uma coluna no metrô e passava despercebida no meio da multidão. Dentro dela habitavam um Picasso e um Sophie Matisse.
Ele era mendigo. E a sua casa, no sentido de lugar onde se dorme, era o metrô. Vivia no subterrâneo porque era assim que se sentia, abaixo da vida que se via nas calçadas. Ele não tinha pressa, não tinha horário, não estava indo nem voltando de lugar nenhum. Até que em uma manhã ele avistou uma maleta encostada à uma coluna sem ninguém por perto.
Era livreiro de pai e avô. Tinha uma pequena loja em frente ao metrô que era negócio da família. Todas as manhãs, seguia o mesmo ritual: abria a loja, arrumava os livros e, com um café nas mãos, hipnotizava-se com a multidão que passava apressada.
Essa é a história de um homem que perdeu uma maleta. Que foi encontrada pelo mendigo. Que jogou no lixo do livreiro. Que a devolveu ao homem, porque sabia o valor das 3 obras que tinha nas mãos: um Picasso, um Sophie Matisse e o best-seller que, ele mesmo, escreveria contando tudo isso mais tarde.
Por Andrea Siqueira
Será que uma sementinha já sonha com a suculência dos seus frutos, quando começa a germinar? Será que ela imagina o esplendor da sua copa, recheada de sabores e beleza? Você pode ser uma bela árvore, guardada numa simples semente. Não espere muito para apostar nos seus frutos.