



Segunda-feira, Abril 23, 2007
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
Fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si-mesmo...
Guimarães Rosa
SÓ ELE
Ele chora
Ele canta
Ele medita
Ele sonha
Ele ri
Ele ama
Ele acredita
Ele cuida
Ele ilumina
Ele inspira
Ele ensina
Ele quer
Ele brilha
Ele respeita
Ele seduz
Ele encanta
Ele amanhece
Ele merece
Enquanto eu tento fazer por merecer
DEPOIS DE TER VOCÊ
Depois de ter você, parei de ler meu horóscopo. Acho que, de repente, o futuro chegou e não preciso me importar com o que virá depois. É como se essa sensação de não ter que adiar a felicidade me deixasse ainda mais feliz (mas, afinal, por que buscar tão longe algo que está bem dentro de você?). Eu transbordo. Transbordo de certeza de que dessa vez tirei a sorte grande e não há nada no mundo que roube esse encanto. E o mais engraçado é que nunca li isso no meu mapa astral...
Veio sem aviso e sem manual. Dá um medinho de usar demais e de repente pifar de vez. Mas eu corro esse risco, você é minha tentação, meu vício. Não dá pra fugir dos clichês que a gente vê por aí. Quem está de fora só enxerga isso. Eu enxergo a vida. Mais colorida, mais sensata e coerente do que nunca. Eu enxergo o desejo de ter você todos os dias, porque depois de ter você desejo mais cada diazinho que vivo.
Eu não sei se é pra sempre, não faz diferença. Não quero que faça. Só quero que fique. Não importa quanto tempo durar, desejo que fique essa certeza de que o amor é mesmo a grande razão dessa vida louca. E, ainda mais, quero que fique em mim um pouco de você, do seu jeito macio de viver, como quem vem de mansinho e toca suavemente cada momento, cada pessoa e vai semeando doçura por onde passa, como a luz da fotossíntese, que a planta acolhe e transforma em energia positiva, energia nova, em vida.
Depois de ter você, só me resta tentar ser competente pra te fazer feliz exatamente desse jeitinho delicioso que você me faz.
Sobre a Mágoa
a dor coagulou em minhas veias
e minhas entranhas estão cheias
do que não passou
Eu
tudo que um dia eu fui
é tudo que melhorei pra ser agora
meu eu cresce nunca diminui
balançado pelos meus eus de outrora
certo ou errado é assim
dúvida ou clareza lado a lado
rosas que tem cheiro de jasmim
sinos a tocar sem ter badalo
ser um aprendiz eternamente
fazem minha pessoa ser feliz
dizem ao meu eu intermitente
pra onde chegar fincar raiz
flores a brotar em vários olhos
brilhos a ofuscar minha visão
belezas tais como a de Abrolhos
natural, fazem perder na imensidão
confusão de pensamentos e questões
indicam uma mudança quase eterna
sentindo bem mais que sensações
mesmo quando quase meu eu hiberna
tantas as perguntas matinais
tantas as respostas vespertinas
tanto dialogo com animais
tanto olho olhares de meninas
tantas noites tenho pesadelos
tantas noites não lembro dos sonhos
em sonho fui até vários terreiros
livrar-me dos olhares tão medonhos
ciganas a dançar em puro ardor
anjos a atirar-me ao peito flechas
sempre a desejar um novo amor
mantenho-me com as portas do meu eu abertas...
mantenho-me com as portas do meu eu abertas...
sempre a desejar um novo amor
anjos a atirar-me ao peito flechas
ciganas a dançar em puro ardor
livrar-me dos olhares tão medonhos
em sonho fui até vários terreiros
tantas noites não lembro dos sonhos
tantas noites tenho pesadelos
tanto olho olhares de meninas
tanto dialogo com animais
tantas as respostas vespertinas
tantas as perguntas matinais
mesmo quando quase meu eu hiberna
sentindo bem mais que sensações
indicam uma mudança quase eterna
confusão de pensamentos e questões
natural fazem perder na imensidão
belezas tais como a de Abrolhos
brilhos a ofuscar minha visão
flores a brotar em vários olhos
pra onde chegar fincar raiz
dizem ao meu eu intermitente
fazem minha pessoa ser feliz
ser um aprendiz eternamente
sinos a tocar sem ter badalo
rosas que tem cheiro de jasmim
dúvida e clareza lado a lado
certo ou errado é assim
balançado pelos meus eus de outrora
meu eu cresce nunca diminui
é tudo que melhorei pra ser agora
tudo que um dia eu fui
Duka Souto
"Começar uma história com uma garota é como viajar. É indo para longe com alguém que descobrimos se estamos perto."
Trecho do filme Bonecas Russas
(A)PENAS
não
eu não vou falar com você
não serei a primeira
não darei bandeira
não direi te querer
contento-me apenas em ficar assim
registrando nosso fim
simplesmente contemplando
te admirando tão bela
na janela
do meu messenger
A COMPAIXÃO
No sentido de co-sentimento (e não de co-sofrimento), como seria traduzida pelas línguas que não descendem do latim
"Não existe nada mais pesado que compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos."
trecho do livro "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera
Deus do (meu) Breu
Já era tarde, eu bem sei
Mas sucedeu o que não pensei
Um ser alado, um macaco doido
Todo afoito a me encantar
Só contando pra acreditar
Estava escuro, cheguei lá
Um frio no osso de se cortar
E as estrelas a alumiar
Um conto desses de se contar...
Abri um olho
Depois o outro
Virei pro lado
Ainda torto
E assustei-me de supetão
Não, não foi ilusão
A perna cabreira
E o encanto mudo
Tava logo ali o dito cujo!
De tão assustada quase fujo
Não dei por mim que merecia tanto
Parecia milagre, mas no entanto
Estava ali de carne e osso
Cheio de brilho até o pescoço
Contemplei sozinha o Deus Negro
Por dois tempos, em segredo
Um tesouro que almejava meu
O rei mais lindo de todo o breu
Das minhas lembranças
Pensei em prendê-lo
Mas que diacho!
Seria um tanto quanto arriscado
Que graça tem o mais belo rei
Sem seu majestoso principado?
Preferi me esconder
E castrar meu querer
Um presságio da dor
Que iria sofrer
Ao procurar a poesia
Que ainda arrupia
Em qualquer magia
Que não fosse te ter
Hoje vago por outros reinados
Mas sua lembrança é meu doce fardo
E o brilho que eu tinha ao seu lado
Anda um tantinho de nada embaçado
Prometo mudar o rumo da prosa
Fazer-me sempre bela e formosa
Para revelar-te meu, afinal
Sempre que sonhas sonhos no plural
E ferve-lhe o sangue de forma tal
Que meus gemidos fazem-se seus
E acordas imponente Deus
Desse amor
Sobre o Tempo (e o perdão)
"O tempo é algo precioso. E os anos ensinam mais do que os dias jamais saberiam."
trecho do filme "De Encontro com o Amor"
Ah, se eu pudesse!
Se eu pudesse escolhê
Sonhava a noite toda c'ocê
Dia sim, dia não
Que é pra num ficá apegado
Purquê sonhar um bocado também
Não deve fazê bem
Esse vai-e-vem de fantasia
Pode aprisionar a alegria
E transformar tudo em fardo
Mas se eu tivesse um poder danado
Ocê já tinha era chegado duma vez
Pra nóis sonhar juntinho
E rechear nosso ninho
Com os filhos da lucidez
O FEITIÇO DA MUIÉ BORBOLETA
Hoje acordei virado na bagaceira
E eu ja to pelas bera com essa situação
Despertei avexado logo manhã
Acordei com a boca doce
que eu pensei até que fosse
o mais puro mel de romã
Como pode um cabra relento
com um sonho tao bunito
chega me agonia aqui dentro
pensar nesse fato esquisito
Era uma noite escura
chega as vista ficava preta
Me aparecia uma criatura
metade vaga-lume, metade borboleta
Pousou no meu nariz
como quem nao queria nada
e disse toda feliz:
você agora tem uma fada.
Vixe. Agora é que danou-se
Botaro cachaça no meu café
Eu conversando cum vaga-lume
que tem cara de muié
Sacudi minha cabeça
fazendo avoar aquele trocinho
alumiava feito candieiro
fazendo um rastro com seu caminho
Antes que eu me desse conta
ja tava todo enfeitiçado
A cabeça meio tonta
os cabelo arrupiado
To ficando é maluco
com essa muié-borboleta
parece até q to fumando
o cigarro do capeta
Arrodiou o meu pescoço
parou no pé do meu ouvido
e disse: ande seu moço
faça logo seu pedido.
Ahh... agora to entendendo!
então eh isso
tu é daqueles anjo
que sabe fazer feitiço
Oxe seu minino
Num so vaga-lume, nem borboleta
nem anjo nem muié
Mas pra adiantar nosso selviço
tu me chame do que quizer
Disse ela sorrindo
com os zoin apertado
avexando meu juizo
e me deixando encabulado
Então ta certo fadinha do sertão
Se é pra pedir, num vo economizar
Cansei de andar com pé no chão
De agora em diante eu quero avoar!
Sair por ai feito piriquito
céu afora, desembestado
quero ver se é mesmo tão bunito
o mundo visto daquele lado
Nem deu tempo de piscar
ja senti o corpo dormente
Era um calafrio que vinha da espinha
que fazia bater os dente
Não conseguia parar de tremer
e num tem macho que consiga
Quando vi ja tava perto das nuve
Vendo cabrito do tamanho de formiga
Valei-me meu Padin Ciço
cade essa fada que sumiu?
Me trouxe pra riba com esse feitiço
fez o trabaio todo e fugiu
Fugi não cabra medroso
Num ta vendo q to do seu lado
aproveita esse vento gostoso
disse ela achando engraçado
Nao demorou muito
eu ja tava bem a vontade
De longe via as montanha, rio, cachoeira
Natureza de verdade
Era tanta coisa linda
que nao sei dizer ao certo
se era mais bunito de longe
ou melhor ver bem de perto
La de cima vi um lago
tao azul q quase choro
tanta água era luxo
lá nas banda onde eu moro
Puxei a fada pelo braço
e me joguei la de cima
quanto mais chegava perto
mais ficava cristalina
Mergulhamo naquele azul
e ai foi que assucedeu
A fada se alevanta
Do mesmo tamanho que eu
Como pode um musquitin
crescer tao depressa
mergulha uma borboleta
e sai uma mulher dessa
Ela disse: feche o zoio
que seu sonho num acabou
De perto sentia o cheiro
como vindo de uma flô
Me beijou devagarinho
parecia algodão
tao macio e tao docinho
que nem doce de mamão
Acordei bem nessa hora
todo desconfiado
Ja num tava mais dormindo
mas sentia o colchão molhado
Aprendi que não tem jeito
uma fada nao se ama
ou tu vai ter dor no peito
ou fazer xixi na cama.
Pietro Leal
Sobre o agora
Vivo tão intensamente o momento presente
que quase chego atrasada ao momento seguinte.
Rita Apoena
Meias-palavras?
Meias?
Não, prefiro não pisá-las
EU JÁ TE DISSE?
A colunista reflete sobre o fim de um relacionamento
Sabe do que eu gostava e nunca te falei? Quando você saía do banho. Você nunca conseguiu se secar direito. Vinha pingando pelo quarto. Cabelo displicentemente penteado, e completamente encharcado. De calcinha, e escorrendo água por aquele corpo reto, sarado, lindo. Aí, como se estivesse completamente seca, você deitava na cama, do meu lado. Colada. E me beijava com a boca doce, úmida, só minha.
Depois de um tempo, lembrava dos cachorros, e abaixava, de bruços, para recolhê-los para cima. Enquanto fazia isso, me lançava um olhar que pedia aprovação. Se eu não dissesse nada, você cantarolava alguma coisa, algumas daquelas músicas que você compunha para eles e me fazia rir muito, e lá vinham aqueles dois cachorros miúdos correr pela cama em volta de você. Eu só deixava, e isso eu nunca te falei, porque adorava a cara que você fazia.
Você ria como uma criança. Uma criança que você é, e nunca vai deixar de ser. E isso, talvez eu nunca tenha te dito, é das coisas mais bonitas que você tem. Bonito porque, mesmo sendo tão pura e ingênua, você é madura, forte, determinada. Você é tudo isso em uma só. E o que me atraiu em você, numa tarde de verão californiano, foi exatamente essa mistura rara. E isso, eu acho, nunca te disse.
Eu também nunca te disse que você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, disse? Disse que nunca antes tinha amado de um jeito tão forte, tão químico, tão sensível? Que nunca tinha tremido de paixão como naquela noite que você me beijou no sofá da sala? E em todas as seguintes. Já te disse? E eu já te disse que você me entendia como ninguém jamais me entendeu na cama? Que eu nunca fui tão longe? Que te ver sorrindo em cima de mim, só pra mim, talvez seja, até hoje, minha paisagem predileta?
Sabe do que mais eu gostava? Quando você imitava o cara do desenho animado, o portuga. Eu ia trabalhar lembrando da imitação e morria de rir, sozinha no carro. Eu já te disse que te amei, entre tantas outras coisas, porque você me fazia rir? Já te disse que hoje, quando a gente se encontra e consegue superar a dor para falar do passado, você ainda me faz rir assim? Já te disse que lembrar da vida que eu tive do seu lado é meu passatempo predileto? Que você me ensinou sobre as pessoas, sobre as verdades, sobre futebol, sobre política, sobre justiça, sobre como um prédio sai do chão e chega ao último andar, sobre a lógica da vida?
Já te contei como essas coisas mudaram a forma como eu vejo o mundo? Já te disse como era bom ficar deitada no seu ombro? De como eu me sentia segura? De como eu gostava quando a gente via "cuickócuick" e de como a gente sacaneava, naquele jogo que vai ser para sempre só nosso, "Summerland"? Já te disse que, até hoje, quando eu ouço a sua voz no telefone, meu coração palpita diferente? Que a sua voz, as coisas que você me diz, o jeito que você diz, entram no meu ouvido da forma mais doce do mundo? Que eu adorava quando você me abraçava no meio da noite? Que eu chorava quando a gente fazia amor?
Já te disse que te ver chorar é como pegar uma faca bem afiada e ir passando ela devagarinho pela minha alma? Que eu ainda sonho com você? Com a gente lendo o jornal no chão da sala, tomando café, comendo as "especialidades" que você fazia para mim? Já te disse que eu comecei a escrever este texto umas 300 vezes e nunca consegui terminar porque as lágrimas não deixavam?
Já te disse que as músicas que você compôs no violão são as mais bonitas que eu já escutei? Que eu ouvia sozinha, escondida, quando você estava no trabalho, e elas me faziam chorar? Já te disse que eu adorava quando a gente ia almoçar na casa dos seus pais e suas irmãs ficavam falando de como você era mal- humorada na infância? Eu te olhava, ouvindo a mesa inteira falar de você, e via a mulher que só eu conhecia, que só eu amava daquele jeito tão fundo. E sentia um orgulho enorme. Aliás, e isso eu acho que eu já te disse, eu sinto tanto orgulho de você... Tanto.
Eu queria ver o mundo com seus olhos de criança, chorar e deixar as lágrimas pularem, e não apenas escorrerem. Queria ser indignada como você. Inquieta como você. Justa como você. Bonita como você. Intensa como você. E sabe o que mais eu queria? Ter tido um filho seu. Porque eu queria que você se multiplicasse. Acho que é disso que o mundo precisa. Pessoas bonitas, fortes, inquietas, indignadas, questinadoras, inteligentes. Como você.
Mas tem uma coisa que eu certamente nunca te disse. Por que a gente se separou. Sabe por que eu nunca te disse? Porque eu nunca entendi. Eu não sei o que te afastou de mim, o que me afastou de você. O que eu sei é isto: eu sempre vou te amar. Pelo que você é. Pelo que você foi. Pelo que você será.
Milly Lacombe, jornalista
Devaneios de uma tarde de sexta
Uma rede com vista pro mar
Uma tarde inteira para amar
A Lagoa Azul na Sessão da Tarde
Um pôr-do-sol que chega arde
Uma canga e um sombreiro
Um sorvete de brigadeiro
Willian Bonner num ensaio sensual
De cueca preta e cara de mau
Ah, todo dia podia ser sexta
Pra gente não ficar tão besta
Asssim
DÚVIDA
Se o Brasil for mesmo hexacampeão, a taça virá na cueca de quem?

A Casa Sem Janelas
Debruçou-se delicadamente na janela. Ali, sim, ela sonhava. Sabia que aquela estrada poderia levá-la aonde quisesse e se divertia a olhar os passantes sonhadores. Para onde iam com tanta pressa? Para frente ou para trás? Ficava ali até que sentisse o ímpeto de pular. Aí, era hora de voltar para si e fechar todas as janelas. Não podia seguir com os outros. Para onde fugiria se parasse de sonhar?
"A vida é uma coisa engraçada. Se você deixar, ela vai sozinha, como um rio. Mas se você quiser, pode colocar um cabresto e fazer da vida o seu cavalo. A gente faz da vida o que quer. Cada um escolhe a sua sina: cavalo ou rio."
Trecho do filme "O Homem do Ano"
AMOR COM DIREITO A TROCO
Naquela hora, meu coração fez "plim". Não que eu quisesse ou premeditasse algo, mas, se ele não tivesse olhado para trás, é bem possível que eu não entrasse em transe de repente.
A vontade nascendo feito flor brotando e a mão gelando que nem sapo no sereno. O mundo todo ficando pequeno, e um quase olhando o outro, mas desviando o olhar, que é pra não ficar besta. Desses sentimentos que a gente sente e deixa passar, depois da festa. (Não serve nem pra botar em poema, porque deles a gente nunca lembra)
Mas de você eu guardo o brilho dos lábios a sorrir, disfarçando o olhar na multidão. Eu nem pensava que merecia sua atenção, às vezes, meu rosto até se esconde, sem graça por perceber que tem sua graça de graça, e com direito a troco, o que é bem pouco pro amor que lhe dou.
PRESENTE DE ANIVERSÁRIO
- "Ele é lindo, perfeito, uma pessoa especial... - lanço-lhe um olhar em concordância - ... Como é que duas almas assim se encontram...?"
Acho que acabo de descobrir porque dois conceitos tão diferentes
podem ser traduzidos numa mesma palavra:
partir.
Esconde-Esconde
Adoro quando você se mostra
Vem de mansinho, se encosta
E deixa escapar nas entrelinhas
Um pouquinho de você
Depois disfarça
Finge que não vê
Sorri
E se esconde de você
Como quem
No fundo, no fundo
Não quer nada além
De me proteger
Um Verso
Arrumei todas as palavras num verso
Consertei os contrapostos do inverso
Paguei todos os impostos do universo
Cancelei os pressupostos do incerto
Só pra ver se transformava em verso
O inverso mais incerto do universo:
Você
"Sabe aquela fase da vida em que você percebe que a casa em que você cresceu não é mais seu lar? É o lugar onde pode largar as coisas, mas a idéia de lar se foi. (...) Você verá quando se mudar. Acontece. Um dia, foi-se. E você sente que nunca mais vai tê-la na vida. É como sentir saudade de um lugar que não existe. É como um rito de passagem, sabe? Você não terá essa sensação de novo até criar um novo lar para você mesmo. Para seus filhos, sua própria família. É como um ciclo ou algo assim. (...) Talvez família seja só isso mesmo. Um grupo que sente falta do mesmo lugar imaginário."
Trecho do filme "Hora de Voltar" ("Garden State")
O Cordel pela Raiz
A Literatura de Cordel é uma das maiores expressões populares de um povo sem muita oportunidade, espaço ou intelecto próprio para manifestar seus anseios, suas dificuldades e seus valores.
É inerente ao homem a necessidade de se expressar e desabafar suas angústias e o cordel nada mais é do que uma ferramenta para este fim. Através de versos cantados ao longo de muitos anos, o cordel tornou-se um retrato histórico, antropológico e social de um povo. É a herança, o capital cultural e a identidade do nordestino que enfrenta a seca, a miséria e o esquecimento, numa sociedade onde é preciso gritar (ou cantar em versos) para ser ouvido na multidão.
A Literatura de Cordel é um instrumento social, a partir do momento em que se torna, muitas vezes, o único meio de divulgação de notícias e informações para os ignorantes, alcançando as camadas mais miseráveis e isoladas da sociedade. Em menores proporções, a Literatura de Cordel ainda insiste em se manter viva e tem ultrapassado fronteiras físicas e sociais, alcançando e, quem diria, conquistando o jovem urbano de classe média. Novas bandas têm surgido e, integrando arranjos modernos à tradicional arte popular, acabam transmitindo a vivência, a cultura e a vida de quem está a quilômetros de distância do seu mundo.
A banda Cordel do Fogo Encantado é um forte exemplo desse intercâmbio cultural. A banda nasceu em Arcoverde, no interior de Pernambuco e, graças ao talento e ousadia dos seus músicos, rompeu todas as fronteiras existentes e, apesar de não possuir contrato com uma gravadora, conseguiu falar a língua do jovem urbano e já conquistou centenas de fãs por todo o Brasil. Exemplos como este semeiam o otimismo e a crença de que o cordel vai sobreviver às interferências globais e manter sua tradição, talvez em seu formato original, talvez mesclando o tradicional com o moderno, mas será sempre o nosso atrevido cordel em sua mais profunda raiz.
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas"
Clarisse Lispector
Cadência
Sentou-se na areia para melhor contemplar seus pensamentos e lembrou de tudo o que jamais esqueceria. Um ano inteiro em banho-maria! Ele não a entendia, não sabia, só a queria. Queria muito, não sei o quê, mas com a ânsia de quem não pode esperar para viver uma eternidade. Também, o seu maior dom era mesmo sonhar e ele tinha achado um bom motivo para isso. Não precisava mais nada, nem a correspondência, talvez sequer a existência.
Sentei ao seu lado sem ser percebida e comecei a ouvir seus pensamentos. Nossa, como ele a queria! Ela era a mulher certa, naturalmente viva, brilhantemente vencedora. Podia sentir o seu cheiro de tangerina e o suco da mais doce jabuticaba em seus lábios. Linda. Sonhou com o dia em que ela seria sua e adormeceu sorrindo para a Lua.
Ouvi seus pés hesitantes massageando a areia, logo atrás de mim. Ela também queria. Ainda distante, fechou os olhos para apreciar o êxtase do prazer infinito da sua chegada. Não resisti e, também em êxtase, roubei o amor que só ele merecia.
Só a Lua viu duas estrelas cadentes no deserto daquela noite.
São seus olhos.
1º DE DEZEMBRO
Há alguns anos, vi num filme futurista, de ficção científica, a previsão de uma chocante realidade: o relacionamento sem nenhum tipo de contato físico. No enredo, um casal decidia ter uma ¿noite de amor¿, cada parceiro vestia um capacete e, sob a distância de 2 metros, faziam sexo virtualmente, encarando tudo como algo natural e rotineiro.
Hoje, ainda mantemos o contato físico entre parceiros, mas já alcançamos certa distância: uma distância de 52 mm, para ser mais exata. Distância também chocante, mas irremediavelmente vital.
Ainda olhamos nossos parceiros nos olhos, mas sabemos que não enxergamos tudo. A desconfiança entranhou-se no inconsciente das relações como um escudo protetor (uma camisa protetora). Entre quatro paredes, somos pouco do que somos e muito do que podemos ser.
E exames de sangue já predizem rotina. E o suspense pelo resultado é cada vez maior. Mas, enquanto houver toque e todo mundo se tocar, ainda haverá esperança de vivermos num mundo onde a realidade é melhor do que a ficção.
O amor comeu a medida de meus ternos
Trecho de:
Os Três Mal Amados
João Cabral de Melo Neto
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
O amor comeu metros e metros de gravatas
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte
(por Cordel do Fogo Encantado)
PRAZER PELO NARIZ
Depois do Viagra, pesquisadores americanos estudam um spray nasal capaz de aumentar o desejo sexual feminino, ainda em fase de teste e fora do alcance de possíveis consumidoras. O spray é feito de um composto chamado PT-141, que foi descoberto por acaso, em um estudo para desenvolver estimulantes para a ereção masculina. Depois de inalado, ele afeta a química do cérebro, aumentando o desejo sexual. O teste foi feito por pesquisadores da Universidade do Arizona em 18 mulheres na pré-menopausa que tinham baixo desejo sexual. Os resultados foram bem satisfatórios.
(*notícia retirada do site da revista TPM: www.revistatpm.com.br)
A busca incessante e desesperada pelo prazer existe desde quando o homem convencionou que, para sentir prazer, ele precisaria estar escondido, assumir um compromisso e/ou provar ser digno de tal emoção.
Antes, era tudo mais simples: sexo sem pudor, tesão sem amor, sem maus-hálitos ou arrependimentos amanhã. E o prazer não se restringia apenas ao sexo: a emoção de fazer o que quisesse, onde e como quisesse era capaz de provocar um prazer que hoje talvez não tenhamos a dimensão, por não sabermos o que é agir sem ser censurado pelo próximo.
Mas, como ser racional, o homem decidiu racionalizar o que de mais belo tinha em seu instinto. E, desde então, já inventaram a terapia, as simpatias, os hospícios, o ópio, o êxtase, o Viagra e, agora, até o "lança-perfume-do-prazer". Pelo visto, estamos em busca de tudo aquilo que castigamos lá atrás.
Todo mundo quer prazer. Todo mundo deve inventá-lo e senti-lo da sua melhor forma. E se evolução é a lapidagem de algo tão belo por sua brutalidade, que venham brutalidades de prateleiras, pelo bem da humanidade!
Maturidade
Às vezes, a percepção que tenho em relação à vida e a alguns momentos que vivo é tão intensa, e tão singular, e tão fundamentada em minhas crenças e no que eu sou, que, na falta de explicações, prefiro guardá-la só para mim e contemplá-la no infinito dos meus sentimentos.
Vista de Barão!
"...Mas você pode ter certeza..." Desligou o rádio antes que Nando completasse sua premeditação. Já não tinha mais certeza de nada. Sonhara em mudar o mundo e acabara de realizar que o mundo é que a havia mudado. Realiza, realiza, não percebes que a cobaia é você? Não tem jeito, não tem jaula e não tem chave: a máquina não pára por sua causa. Se não suporta o mundo real, vá viver no mundo da Lua!
UM POUCO MAIS DE VÍRGULAS
Se eu pudesse controlar os ímpetos da minha geração, com certeza poria um pouco mais de vírgulas em seu enredo. São facultativas, eu sei, mas uma vírgula aqui, outra ali, devolveriam a poesia aos nossos valores, há tempos perdidos nas apertadas entrelinhas do compasso moderno.
Um pouco mais de tempo diário no convívio familiar, para absorvermos as lições mais valiosas da vida.
Um intervalo maior antes de decidirmos o resto de nossas vidas nas inscrições dos vestibulares.
Uma pausa entre a praia e a academia, para a dedicação ao exercício cerebral e armazenamento de qualquer conteúdo digno de ser expressado numa conversa informal.
Um suspiro antes do beijo, que já não rouba o ritmo dos corações banalizados por uma sexualidade cada vez mais seca de sentimentos e valores.
Uma vírgula entre o primeiro beijo e a não mais esperada noite de amor.
Um pouco mais de vírgulas e de todas as entrelinhas que elas podem trazer. É disso que essa geração reticencial precisa.
Escapuliu, por acaso:
A distância me ajuda a idealizar as pessoas e eu passo a amá-las em mim e não no que elas são. E não me importa: se assim eu me sinto melhor, prefiro me iludir e cultivar meus mais virtuosos sentimentos (despretensiosamente, é claro).
Viva cada dia como se fosse de propósito.
Passando a Limpo
Deixou molhar um pedaço vazio do papel. Esperava ansiosamente que aquelas linhas tão decididas tecessem algum comentário. Ninguém falou nada. Não havia mesmo consolo a se dar. Se solidão tivesse remédio, não faltariam farmacêuticos milionários por aí.
Aquele insistente papel pálido refletia o seu vazio. Interessante? Até mesmo um papel em branco poderia ser interessante. Não era essa a questão. Perguntava-se quem seria capaz de contar uma história sem rascunhos, em uma folha solta de caderno. Cheia de linhas. Repleta de entrelinhas.
Encarou pela última vez seu ríspido delator e não resistiu à denúncia. Rasgou-o em pedacinhos, cuidadosamente, e jogou tudo pela janela: alguém tinha que se libertar, finalmente.
O primeiro passo para se chegar a um fim: acreditar no caminho.
Frase do dia:
"TODA PESSOA É UM FIM DE SI MESMA"
Osho
A_Feto
Foi muito intenso
Foi muito rápido
Foi
E ficou para sempre
A cada plano que eu não fiz
A cada sonho que eu não tive
No silêncio que restou
Das batidas do teu coração
Nas lágrimas de sangue
Que o meu corpo ainda jorra
No coração em cólicas
Que geme de medo
Na solidão mórbida
Que sufoca o travesseiro
No alívio cruel
De um egocêntrico desejo
Na vergonha escancarada
Que julga em segredo
Foi
E ficou para sempre
NEGA MALUCA
Estava tudo muito bem
Até que ele chegou
Com ar de quero-bem
E de tudo se apossou
Ninguém dava nada
Ela deu tudo
Ficou estabanada
Com um sumiço mudo
Chorou mesmo de raiva
De ter apostado tudo
Aprendeu a não sentir nada
A adorar o mundo sujo
Ele a encontrou revoltada
E mostrou o que estava no fundo
Lembrou o amor descoberto
Assumiu que esteve por perto
Que nada na vida é certo
Nem a certeza absoluta
Propôs uma morte absurda
Desandou os caminhos da cuca
Paranóia não se futuca!
Acabou-se tudo incerto:
A nega ficou maluca
O verbo ficou aberto
A história ficou miúda
E você deve imaginar o resto.
Rosebud (o Verbo E A Verba)
by Lenine / Lula Queiroga
Dolores, dólares...
O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afogou sua mágoa, e dormiu.
Dolores e dólares.... rosebud
O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.
rosebud, dolores e dolares...
Não adianta, eu sou eu mesma e azar de quem não gostar. Não (me) disfarço. Não sei jogar outro jogo. Em meu mundo, não cabem jogos de azar. Azar o meu que acaba perdendo a vez por não querer jogar.
Homenagem
ADORO VIVER!
O meu noivo
Quando eu era pequena, eu sabia muito bem com quem ia me casar. Ele era lindo, cabelos negros, olhos azuis, um sorriso irresistível e a pele da cor do verão. E quantos verões eu passei sonhando com ele! Um amor platônico, um desejo real, nascidos quando eu nem sabia explicar nada disso. Ele era um amor impossível: 11 anos mais velho, outro mundo. Mas eu podia jurar que era recíproco. Com todo o respeito que ele devia (e devia) ter por mim, ele também me enxergava, eu tinha certeza. Eu o via uma vez por ano e isso me bastava para eu passar o ano inteiro esperando-o. Era bonito, era sincero, era simples e profundo. Sem joguinhos, sem ilusões, sem ninguém pra me dizer que ele não prestava, sem decepções. Dentro de mim, eu, mais ninguém. Até que nossos caminhos se afastaram e eu cresci. E descobri as vantagens e desvantagens de não saber muito bem com quem vou me casar.
Oração pra quando a cerveja acabar
Acabou a cerveja.
Mas, veja, que ainda resta a viola na mão
e o coração que não se cansa de acreditar na canção
que diz que o futuro da nação
somos nós.
Com espuma ou não,
em Lençóis, Mato Grosso e Bahia
ou em qualquer lugar onde possam a magia
e a tulipa gelada chegar.
No mar, no ar, em Belém do Pará.
Na cerveja do Zeca que peca,
mas reza pedindo perdão.
No selinho que Maria deu no João,
depois de descer um engradado.
No amor dos namorados que tomaram uma caixa
e descobriram como se encaixa o céu no mar.
Transborda a esperança na dança da criança,
mesmo se a cerveja acabar.
Resta a festa que presta e empresta
o frescor de sonhar.
Em verde e amarelo,
em loiras e morenas (grandes e pequenas),
no pão,
no circo,
no pobre e no rico.
Ao remelexo do pandeiro,
mesmo que não sobre dinheiro,
ergue o sol por inteiro,
sem deixar degelar.
Três dedos de chopp,
dois dedos de prosa e uma rosa
para enfeitar.
Dona Maria Joana já botou pra gelar.
E chama os amigos, os inimigos,
os mocinhos, os bandidos,
os vizinhos,
promete tomar um golinho
pra brindar.
Ao santo, ao pranto,
à alegria de amar.
Calça as chuteiras,
faz um gol de primeira
e toma a saideira
sem entornar.
O país do carnaval
pendura as tristezas no varal do quintal
e deixa secar. Deixa pra lá,
deixa molhar os olhos, transbordar a emoção,
alagar o coração sem derramar.
Porque amanhã vai ser outro dia
e Alemanha nenhuma fabrica essa magia
que não leva embora a alegria,
mesmo se a cerveja acabar.
Tudo
Acordou bruscamente e mal olhou no espelho. Sonhou que era mais do que tinha, que tinha tudo o que era. Chorou sem saber porquê, olhou sem ter o que dizer, falou que não diria nada. Entendeu um pouco de tudo, estendeu um abraço mudo, enxugou os restos de pensamentos, dobrou as poucas lembranças, arrumou suas malas e partiu sem arrependimentos.
19 de Abril
Eu queria era ser índio pra andar de bumbum de fora, contemplar a beleza da aurora, fumar um de hora em hora e ser feliz.
Você acredita em fadas? Acabo de ver uma, no meu quintal, cochichando com a samambaia. Dizia que as pessoas precisam acreditar mais em magia, que a vida é um faz-de-conta, basta apenas acreditar. E o narrador é você. Você pode não criar a estória, mas pode dar o clima e a entonação que quiser e tudo fluirá de acordo com a sua verdade. Não sei se ela me viu sentada, atrás da laranjeira, ou se acredita que eu exista. Mas, que eu a vi, ah, isso eu vi!
A insônia acaba de me lembrar que faltam 15 dias pro meu aniversário. Sai o 2 e entra o 3, por sorte, ainda não é na primeira casa decimal. Resta-me o prazo de 7 anos para firmar meu nome, minha carreira, meu endereço, meu estado civil, meu peso, meu projeto de vida, a cor do meu cabelo, a história da minha vida.
Ah! Ninguém me avisou que existia a crise dos 23!
Apesar de eu cada vez mais me impressionar com a capacidade que esse povo tem de ser maravilhoso, preciso desabafar: parece que a beleza dos cariocas está inversamente proporcional à sua capacidade de armazenar qualquer tipo de conteúdo interessante.
Os Porões dos Seus Castelos
Todo poeta precisa de uma musa
Sinto que você me usa
Para seus fins
Você esquece que musas também precisam de inspiração
Que nada mais vale um tostão
Quando a oferta é exagerada
Não precise de mim:
Desprecise
Diga que acabou
Mas deixe um sinal
De que nem tudo está perdido
E não me deixe saber mais nada das suas canções
Não ilumine os porões dos seus castelos
Porque romances só são belos à meia-luz
Nossos corpos ficam nús
As sombras, não
COMO NASCE UMA FOFOCA
(Uma estória verídica)
Conversa entre 5 mulheres na mesa de bar:
1ª - Então, era mesmo hemorróidas?
2ª - Em Júnior*?
3ª - "Ninguém sabe porquê..."
4ª - Deixa o garoto em paz. É opção sexual dele.
5ª - Gente, ela só perguntou sobre meu probleminha de saúde. O que vocês entenderam?
Eu acho que te amo.
Nem tanto nem tão pouco
Somos mesmo dois loucos
Se amando
Querendo tudo
Menos amar
Sem maiores esperanças
Vivo os acasos como uma dança:
Desesperadamente sensual
Porque desesperador é o meu medo de te amar
E não conseguir te amar
Nossa, fazia tempos que ninguém entrava aqui, posso sentir o cheiro forte de mofo. Uma poeirada só, fotos e cartas antigas. Mas, nos próximos dias, terei mais tempo livre, abrirei todas janelas, deixarei novos ares entrarem e farei uma faxina daquelas. Vai ficar novinho em folha, quer dizer, em tela.

- Mamãe, o que é o choro?
- É quando nossa alma se enche de uma emoção qualquer até transbordar.
Meditação para os 5 minutos restantes do horário de almoço:
Quem inventou o trabalho? Quem inventou o horário de trabalho? Quem inventou o chefe?
Acho que preciso me reinventar...
Vi num filme, Colcha de Retalhos, que, quando não temos assunto, falamos da estrada ou do tempo.
É batata...
Ver a chuva no pára-brisa e saber que nada além dele vai te proteger do frio. Ninguém está te esperando em casa com aquele caloroso abraço para te receber. A música no rádio nem faz tanto sentido e você o desliga para ouvir o que a chuva diz, para tentar entender porque chove se você não tem ninguém. Você é uma mulher independente, mas o caminho de casa é automático, apesar de você não estar tão cansada assim. Você poderia perder a noite hoje, na verdade. Afinal, é mais importante viver a vida intensamente. Mas você já se percebe dentro do edredom que nunca foi tão frio. O silêncio do quarto, ao desligar a TV, revela os ruídos da festinha que seu vizinho, aquele gato que bebe a mesma marca de vinho que você, resolveu fazer justo quando você está no auge a TPM. Você adormece e vai parar naquela festa, com muito chocolate e chopp. Você vê todos os seus Exs dançando ao seu redor e o que parecia ser um sonho transforma-se em pesadelo com a mesma rapidez dos seus relacionamentos. Você acorda e puta que pariu, será que nem sonhar você pode? Levanta-se para fazer um xixi (já que a merda já está feita mesmo) e descobre que a menstruação chegou. Ufa, agora é se preparar para o mês que vem.
Calendário Endocrinológico
Estou começando a acreditar na minha teoria de que o homem começou a contar os anos e seus aniversários a partir da observação das mudanças drásticas (e trágicas) das mulheres ao passarem dos 18 aos 20 e poucos anos.
Só para lembrar
Se o trabalho dignifica o homem, suponho que o desemprego - uma conseqüência cruel da falta de planejamento do governo ¿ o humilha. E quando abrimos o classificado do jornal e não encontramos nenhuma "dignidade" que nos aceite? E quando a tal dignidade exige mais dignidade na bagagem?E quanto ao salário brasileiro? Que dignidade ele se pressupõe a dar?
Viva a Democracia
E viva a Democracia. A Democracia das greves e lutas pelos direitos dos trabalhadores. A Democracia da putaria do povo de um país inteiro ficar quase 1 mês sem serviços bancários porque duas classes não conseguem se entender. Democracia de preguiçosos inconseqüentes porque acordos podem ser feitos sob pressão sim, mas dá pra fazer um movimento eficiente se intercalarmos uma semana de paralisia com uma de negociação. E quanto aos trabalhadores que são contra tanto tempo de greve? Obrigados a aderir ao movimento, eles também ficarão sem salário, caso a greve seja considerada abusiva. A Democracia de todos vira-se contra todos, então. No fim das contas, a elite dá 10% de aumento, os trabalhadores voltam à rotina e o povo corre à luta pra pagar suas contas sem juros por atrasos. E viva a Demo_cracia.
By Zé da Luz
Me Deixa
Algumas regras básicas de convivência entre os sexos (ditadas por uma mulher de TPM)
Passada a Revolução dos Sexos, chegou a hora de estabelecer algumas regras masculinas. Eu entendo que o romantismo ainda resista às trepidações do relacionamento-descartável-pós-moderno, mas acho que já está na hora de certos cavalheiros entenderem que mulher que é mulher também gostar de deixar as burocracias do romance de lado e dar. Simplesmente, dar, sem compromisso, cobrança e ligações reticenciais no dia seguinte. Discutir a relação, atender no terceiro toque do telefone, fazer charminho no primeiro encontro são coisas da década passada. Nem sempre queremos 8 ligações não atendidas no celular, torpedos ou dengo ao pé o ouvido. Ás vezes dá até enjôo tantos atos melosos (e a gente até se pergunta se não esqueceu de tomar o anticoncepcional). Por que não aceitar que também saímos, de vez em quando, pra salvar uma noite sem graça com uma fodinha e nada mais? É tão difícil comer uma mulher pós-moderna? Era pra ser mais fácil...
Sim, ainda sonhamos com o cara perfeito, que traga bombons, abra a porta do carro e nos leve para ver nascer do sol numa praia paradisíaca. Mas quem disse que esse cara é você? Enquanto não achamos o cara certo, também nos damos ao direito de curtir (e comer!) os errados.
A pior coisa que existe num relacionamento é o indivíduo que não se toca. Sim, as mulheres são campeãs nessa hora, mas os retardados-convencidos-carentes (nem sempre nessa ordem) estão dando sopa por aí. Quase como uma falha na Matrix, eles aparecem em dejavours nem sempre muito agradáveis e muitas vezes tão estressantes quanto bebês não-planejados.
Nunca gostei de joguinhos, não consigo "fazer doce", mas numa relação tem que existir um componente importante: o amor próprio. Para se "amar o próximo como a si mesmo", é preciso amar a si mesmo, primeiro. Ninguém gosta de carência, de ver um indivíduo se anular para viver a vida do outro, achando isso o máximo (!). É preciso haver uma troca de experiências, ambições, interesses e prazeres para a equação da atração acontecer. Depois de tantas (r)evoluções entre os sexos, ainda precisamos falar com todas as letras "Me deixa que hoje eu tô de bobeira"?
O Amor
Nem menos nem mais
Tem que ser na mesma medida
Pra não ficar tudo pra trás
Pra equação não ser perdida.
E lá vou eu de volta ao começo
Eu odeio perder o controle de mim mesma. Odeio ter impulsos de gastar meus pulsos ou cortá-los de uma vez!
A máscara do mal
Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal
Bertold Brecht
Eu quero o bobo da casca do ovo
Todo
Eu quero o novo
Quero o olho do povo
Que não vê
ATESTADO MÉDICO JUSTIFICATIVO
A paciente Sophia True encontra-se em tratamento por ter apresentado sintomas de Virgulose Aguda em algumas de suas manifestações.
O resguardo será breve, porém, intenso.
Atesto e confirmo.
Ass:
Doutor Doctor
Teoria de Botequim
Conversa leve e descontraída na mesa de um bar. Até que surge a questão: Para onde vão as pinças, as meias e os homens? Após debates, teorias e conspirações, uma conclusão:
Eles fogem para um universo paralelo, para uma espécie de Matrix, onde ficam hibernando, voltando à nossa dimensão apenas em alguns flashes(backs ou não), se derem sorte. Resta saber que caminhos devemos seguir para resgatá-los da Matrix...
Já pensou se o mundo fosse redondo e a gente pudesse dar a volta nele?
Sentou-se no metrô ainda meio sonolenta, mas, percebeu um olhar especial, em sua direção. Era ele, com certeza. Após anos de procura, ela havia encontrado o homem da sua vida. Pesquisou diversas maneiras de se aproximar para conversar, mas acomodou-se ao lembrar que são eles, os homens, que devem tomar a iniciativa. Resumiu-se a olhares de canto de olho e desvios tímidos, que eram a sua função.
Olhos se cruzavam e desejos surgiam de ambas direções, durante toda a viagem. Imaginou como seriam seus filhos, onde morariam, os sucessos do dois, as conversas de pai para filho que ele teria, as discussões sobre a educação dos filhos, as segundas luas-de-mel, o dia em que quitariam o apartamento, as viagens para a Bahia. Ele queria se aproximar, não conseguia esconder isso. As estações passavam e ele parecia sempre deixar para a próxima. Percebeu que uma hora tudo isso acabaria e restavam apenas alguns minutos. Passeou por uma última vez nos seus olhos, perguntando-se quem seria aquele "homem-da-sua-vida", e saltou do metrô, consciente da oportunidade que acabara de perder.

Canção Pra Quando Você Voltar
Quando o sol de cada dia entrar
chamando por você
querendo te acordar
vai ter sempre alguém pra receber
dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre alguém pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar
Leoni
Será que vai ter sempre alguém?
Ruídos Urbanos
Perto da minha casa tem um canil, uma Igreja Evangélica, um hospital, uma favela e mil garagens que acionam apitos estridentes por, aproximadamente, 5 minutos, cada vez que um carro entra ou sai delas. Ah, um detalhe: tudo isso funciona 24 horas por dia (nem mesmo a favela e seus tiros páram).
Serviço de Utilidade Pública
(O texto é grande, mas, necessário.)
"A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus""
Minha ida para Salvador marcou o princípio da minha ascensão na Igreja Universal. Fui escalado para ficar na sede, na ladeira do Aquidabã. A igreja era um fenômeno de público. Todos os dias centenas de Fiéis lotavam o templo. Muita gente esperava a vez de entrar e, finalmente, receber nossas bênçãos. Espalhada pela ladeira, a multidão causava transtornos no trânsito e, muitas vezes, fechava as vias de acesso à Baixa do Sapateiro e à Barroquinha.
Declaramos guerra às religiões africanas, sustentáculo da fé baiana. Guerra à Igreja Católica, nossa maior inimiga. E guerra até mesmo às igrejas protestantes, como a pentecostal Deus é Amor, que nós tachávamos de "candomblé evangélico", e a Assembléia de Deus, para nós um bando de "crentões" e "fanáticos". Nas rodinhas de pastores sempre aparecia alguém contando alguma piada de profundo mau gosto sobre as mulheres da Assembléia de Deus, que, diziam, não se depilavam e não usavam desodorante por considerarem pecado. A Igreja Universal, onde era proibido proibir, era apresentada como o único caminho da felicidade. A verdadeira igreja de Cristo ou "o vinho novo", como gostávamos de anunciar. Jogávamos pesado nos programas de televisão. Quebrávamos imagens de santos católicos e, durante os cultos, queimávamos as roupas de candomblé e colares de miçangas levados pelos filhos-de-santo que se convertiam. O povo vibrava. Nós o fazíamos vibrar. Não é preciso repetir aqui que o povo gosta de pão e circo. Desenvolvi um estilo. Defini um discurso simples, mas poderosamente convincente para levar a mensagem da Igreja. Isso me rendeu o cargo de terceiro pastor no Aquidabã. Acima de mim, apenas os pastores Paulo e Gonçalves. Líder e vice-líder. A promoção me conferia um status. Por exemplo, passeia conduzir reuniões com centenas de pessoas, além de apresentar programas nas rádios Cruzeiro e Excelsior e participar do Despertar da fé, na TV Itapoan. Nos fins de semana, viajava pelo interior do estado fazendo campanhas de evangelização, lotando templos por onde quer que passasse.
Considerando que eu estava na Igreja há pouco mais de um ano, minha escalada era meteórica. Meus dias de dormir sobre assoalho gélido e bancos de madeira haviam chegado ao fim. Logo passei a dividir um confortável apartamento com o pastor Gonçalves e outros dois pastores. As roupas surradas que eu usava deram lugar a ternos de grife e, num piscar de olhos, me vi freqüentando restaurantes finos e viajando de avião. A primeira vez que voltei a São Gonçalo desde que me mudara para a Bahia foi memorável. Cheguei à Boa Vista com uma mala cheia de presentes para minha família e amigos. Naquele dia, transformei-me na sensação da rua. Velhos conhecidos e vizinhos vieram só para me ver. Do alto do meu pedestal, eu criticava a poeira e o calor daquele lugar. E exaltava as maravilhas da civilização moderna. De como era confortável viver com telefone. Assistir à televisão em um aparelho que mostrava dois canais ao mesmo tempo. E, o que é o progresso, ter na cozinha uma geladeira que não precisava abrir a porta para tirar a água. Alguns me chamaram de ladrão, mas eu não dei ouvidos às "vozes da inveja", como diziam meus pais, orgulhosos do filho que estava na Bahia falando para multidões em rádio e televisão. "Graças a Deus", diziam eles, "nosso filho não é como Ney ou Denilton, que só dão desgosto aos pais". O sucesso da Igreja e dos programas de rádio e televisão estava baseado na fórmula infalível criada pelo bispo Macedo: a terapia espiritual. Trabalhávamos diretamente com as emoções das pessoas. Por isso muitas pessoas afirmam que quando ouvem o rádio sentem como se o pastor estivesse falando diretamente com elas. Na nossa programação comentávamos, ao som do piano de Richard Clayderman ou da flauta de Zamfir, os problemas que afligem a maioria dos humanos: desemprego, vícios, doenças, problemas conjugais e financeiros. Depois de um debate no qual discutíamos os efeitos desses problemas na vida das pessoas, apresentávamos a solução para tudo isso como uma única visita a um dos endereços da Igreja. Uma vez que a pessoa ia à igreja, ela era orientada a fazer uma corrente de doze semanas. Corrente na qual ela viria a se tornar emocionalmente presa. Os que quebravam essa corrente imediatamente passavam a ter visões e ouvir vozes. Como Hollywood, nós sabíamos explorar o medo infantil que as pessoas têm da figura do diabo. Informado do sucesso na Bahia, o bispo Macedo resolveu marcar uma concentração no maior estádio de Salvador. Ele havia acabado de lotar o Maracanã. E estava disposto a lotar todos os estádios das grandes capitais. Dois meses antes começamos a trabalhar na promoção do que seria o maior de todos os nossos desafios: lotar o Fonte Nova Queríamos mostrar aos padres, pastores, pais e mães-de-santo da Bahia que o reinado deles havia acabado. Éramos nós quem dávamos as cartas agora. Também queríamos mostrar aos pastores da própria Universal em outros estados que nós, da Bahia, éramos os melhores. Todos os pastores do interior ficaram incumbidos de alugar um ônibus e levar o maior número de pessoas possível. Vinhetas nas rádios e nas televisões, outdoors espalhados pelo estado prometiam curas e soluções. Durante as reuniões na igreja, distribuíamos envelopes e fazíamos com que os fiéis colocassem ali o que chamávamos de "oferta de sacrifício" (algo como o salário do mês) e um pedido de oração, que o bispo levaria para Israel, a Terra Santa. No dia da tão propalada concentração, uma multidão já se aglomerava ao redor do estádio muito antes de os portões serem abertos, às nove da manhã. Quando, enfim, o Woodstock religioso começou, milhares de pessoas, pisoteando velhinhas e crianças, travaram uma disputa agressiva para obter um bom lugar para ouvir o bispo e receber dele os milagres, que era o que interessava àquela gente. Naquela época em que o termo yuppie estava em voga, o bispo Macedo, portando Rolex, Ray-ban, Mont Blanc e a sempre presente Hermès, subiu no palanque que fora especialmente armado para ele no centro do gramado. Não conseguia esconder sua alegria. O estádio da Fonte Nova estava completamente lotado. Repetia-se em Salvador o fenômeno do Maracanã, no Rio. Naquela tarde, depois de recolher os envelopes com o "sacrifício" e com os pedidos de oração, que seriam levados para o monte das Oliveiras, em Jerusalém, o bispo pediu aos seus seguidores baianos uma oferta especial para comprar uma emissora de rádio em Salvador, assim como seus fiéis cariocas o haviam contemplado com a rádio Copacabana. - Será que os cariocas têm mais fé que os baianos? - perguntou o bispo à multidão. NÃO! - a resposta retumbou como um trovão. As ofertas vieram em forma de dinheiro e jóias. Passamos três dias trancados em uma sala contando os sacos de dinheiro levantados no Fonte Nova. No final, o dinheiro foi depositado na conta da Igreja, no Bradesco, em Salvador. O ouro seria levado para o Rio de Janeiro e transformado em barras. Quanto aos pedidos de oração que seriam levados para Israel - bem, eles foram queimados na praia da Boca do Rio. Quando eu era um simples fiel, não imaginava o que se passava nos bastidores, depois que a cortina cai. Os atos de alguns pastores logo me levaram a descobrir que a Igreja Universal nada mais era do que uma empresa com fins lucrativos como qualquer outra na ciranda financeira. A única diferença era o produto vendido: sal que tira vício, lencinhos molhados no "vinho curativo" --o conhecido K-Suco--, água da Embasa, que dizíamos ter vindo do Rio Jordão, azeite Galo, que dávamos ao povo como legítimo óleo ungido proveniente de Jerusalém, e uma longa lista de outros produtos tão falsos quanto as gotas de leite extraídos dos seios da Virgem Maria, que eram vendidas na Europa, nos primeiros séculos, aos otários em busca de milagres. Como ser pastor era antes de tudo uma "vocação" e jamais uma "profissão", não tínhamos vínculo empregatício com a Igreja Universal. Nossos salários eram pagos em cash, isentos de qualquer taxa ou imposto. O valor desses salários variava: cada caso era um caso nas leis do Reino. Apesar de sermos estritamente proibidos de comentar nossos ganhos uns com os outros, sabíamos da injustiça salarial. Pois enquanto dirigentes de igrejinhas de periferia ganhavam salários minguados e insuficientes para sustentar a família, os pastores notáveis trocavam de carro a cada ano e passavam fins de semana em resorts acompanhados de suas belas mulheres rajando Chanel e portando bolsas Luis Vuitton."
Justino é ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus e atualmente mora em Nova York. O texto acima faz parte do livro Nos Bastidores do Reino: A Vida Secreta na Igreja Universal do Reino de Deus, publicado em 1995.
Another one:
"Welcome to the 21st century, where the world's best golfer is black, the world's best rapper is white, the Swiss hold the America's Cup, the French call the Americans arrogant and the Germans don't want to go to war."
Roy H. William
Frase do dia:
"De médico, louco e publicitário, todo mundo tem um pouco."
Amanhã
Amanhã, eu vou acordar mais cedo. Vou arrumar minhas coisas. Vou lavar a roupa suja. Vou começar minha dieta. Vou pensar no futuro. Vou arrumar minha vida. Vou lavar a roupa suja. Vou começar meus projetos. Vou pensar no futuro. Amanhã, eu vou acordar mais cedo.
Desejo Pós-moderno
Eu quero você. Com toda a sede de quem quer tudo da vida, eu quero você. Para viver, para morrer, para usar, para jogar fora e lamentar, eu quero te ter. Agora, amanhã, ontem. Quero o calor das suas víceras e a frieza de um telefonema. A certeza da sua pele e a dúvida do seu desejo. Na inconstância do tempo, eu quero ter uma história para contar, uma lágrima para secar, um conselho para dar. Eu quero ter mais, ter tudo, até conseguir ser alguma coisa.
Carne e Osso
Um breve e quase formal selinho seguido do ruído da porta a se fechar, atrás, e era o fim do relacionamento mais oco que já tivera. Um caso contado em alguns meses de puro tesão, narrado com gemidos de orgasmos inimagináveis. E só. Nada de diálogos mais profundos, confissões ou declarações de amor. A cumplicidade resumida a encontros à escndida e sussurros ao pé do ouvido. Amor de carne e osso, nascido a sete palmos do chão.
O poder nas próprias mãos. Como um super herói que estende seu anel mágico e é capaz de derrotar qualquer obstáculo. Alguém que, canalizando seu poder para o bem e acreditando nos seus sonhos, consegue salvar o planeta. Assim sou eu, aprendendo a viver.
Conflitos de um Regime Militar
O abdômem dolorido pelos 200 abdominais vencidos a muito custo, o estômago rocando pelo seu lanche diário recusado, a saliva gritando pelo chocolate ao alcance das mãos e o cérebro insistindo em manter seu objetivo. Por alguns quilos a menos. Por alguma beleza a mais. Por muito pouco. Por muito mais que um simples chocolate.
Agora já era tarde para redimir seus erros. Os seus acertos já não valiam à pena, o que diria do resto. Naquela noite fria e desesperante, ela escolhera lutar por sua vida e descobriu da pior maneira que nem sempre as coisas são como devem ser (pelo menos para nós). Tudo era mágico até fugir do seu controle. De que vale amar como nunca se amou, cuidar e desejar o melhor se precisamos guardar todo esse amor no peito? Era hora de parar, mas, ninguém lhe ensinara como. E o tempo passou sem que ela se visse livre dessa doença incondicional. Ninguém preencheu buracos, ninguém a fez crer novamente. Tornou-se uma alma sem essência, um sono sem sonhos, alguém que se esconde das próprias lembranças.
A paixão crucifica a humanidade até hoje
¿Foi como aconteceu¿, disse Karol Wojtyla depois de assistir ao filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Independentemente da crença em relação à existência de Deus e da veracidade da história transcrita na Bíblia (pelo próprio homem!), as cenas do filme são mais dantescas que o próprio inferno de Dante Alighieri - onde os violentos eram condenados a nadar num rio de sangue sendo aporrinhados por monstros demoníacos. O que se vê na ¿modesta¿ produção de 30 milhões de dólares de Mel Gibson é uma arena recheada de sadismo e crueldade. Sacerdotes sádicos buscando um prazer quase sexual no sangue que escorria do corpo de um filósofo-curandeiro que, provavelmente, nunca havia praticado o mal. Havia ali uma platéia cega e sensacionalista se regozijando de uma moeda lançada. Afinal, Jesus estava apenas revolucionando seu tempo, assim como Chico Mendes, Che Guevara ou Nelson Mandela - embora não tenham sido punidos de forma bárbara, também receberam sinal vermelho por suas personalidades e ideologias marcantes.
Há mais de dois mil anos é impossível se fazer justiça nesse mundo. Pôncio Pilatos, o governador da Juréia, queria mesmo era lavar suas mãos punindo qualquer um dos dois - Jesus ou Barrabás -, para que tanto o povo quanto os líderes judeus ficassem satisfeitos. Barrabás era um doente, um homicida qualquer - era festa de Páscoa e, por escolha do próprio povo, Pilatos tinha o costume de soltar um preso. Pilatos pediu a Herodes, governador da Galiléia, que tomasse uma decisão, mas este, embora interessado nos milagres de Jesus, vivia nas orgias e acabou não dando importância à situação. Pilatos jogou dados e Jesus foi chicoteado, pior, dilacerado e crucificado até a morte. O filme A Paixão de Cristo tem lá seus méritos, mas não justifica os exageros. Segundo o diretor, extremamente católico, o filme precisava ser realista. Ok! Mas quem gosta de ver, ouvir ou falar sobre as verdades do mundo e da vida? Basilicata, no sul da Itália, região onde foram feitas algumas cenas, é uma região bárbara - e pensar que o mesmo adjetivo também classifica esse longa-metragem.
A violência não é apenas fruto da desigualdade social e do atual regime capitalista em que o mundo se encontra. Segundo psiquiatras, a violência é, também, uma reação que está associada à ira devido a defeitos, erros e sofrimentos do ser humano, podendo até mesmo estar relacionada a alguma patologia. Parece masoquismo, mas o ser humano precisa sentir falta das coisas que está acostumado a ter para evoluir. E, com uma venda nos olhos, ele busca ser possuidor de todas as coisas. Busca-se desesperadamente aquilo que vemos, sendo que o que realmente a humanidade precisa são das coisas que estão tácitas. O homem só terá êxito na vida quando aprender o que é o quinto elemento: o altruísmo. Essa é a mais difícil das posses, pois o amor incondicional é um amor materno, paterno, de irmãos, ou seja, verdadeiro. No mundo contemporâneo não se ama de graça. O sentimento se tornou mercadoria e ele tem seu preço. A hipermodernidade obriga o indivíduo a fazer manutenção de uma imensa campanha de marketing das coisas que vêm do coração. A próxima geração virá com um chip que diz respeito à obrigação da conveniência. O mais difícil mesmo será tentar quebrar esse novo paradigma que, infelizmente, é deprimente. Édipo precisou ficar cego para enxergar a própria realidade. Logo, enforcou-se por não suportá-la. Psique precisou perder seu amor, Eros, para dar valor à sua beleza interior. Tragédias. Todo homem tem sua tragédia. O que seria deles sem suas tragédias?
Por Carol W.
Saudade: a medida exata de tempo que separa seu corpo do meu e as trilhas dos nossos pensamentos (por mais próximos que estejamos).
Saudade de alguém
Que nem sei quem
Vontade de ir além
E nem sei onde
Tristeza que se esconde
Na pressa do tempo
Verdade que nem lembro
Das vezes que disse sim
Saudade infinita de mim
ah, se eu pudesse
ah, se eu soubesse
o sabor dos seus lábios macios
se, na pele, sentisse o arrepio
da sua mão na minha cintura
e achasse que é loucura
overdose de doçura
ser sua para sempre, agora
esquece o amanhã e me namora
como se eu fosse sua amada
como se a noite calada
fosse cúmplice
do nosso amor da madrugada
Caro Mr. Dreamer,
Desculpa a demora por notícias, estava vivendo um pouco para matar o tempo (ou seria para ressucitá-lo?). Tenho ido a lugares muito dantes visitados. Mundos que fazem fronteiras com o nosso, mas que nem sempre temos coragem para atravessá-las. Tenho rodado o mundo em segundos, numa correria ofegante atrás de tanto e de quase nada, de tudo e de nem sei o quê. Uma correria que, como qualquer outra, ferve o sangue das minhas veias e faz-me sentir capaz de chegar longe. Tão longe que, algumas vezes, sequer alcanço meus passos e pareço estar correndo atrás de mim mesma (ou correndo de mim mesma, não sei). O que sei é que descobri que a vida só é vivida quando não deixamos nada para depois, porque o agora é concreto, existe, enquanto depois é simplesmente uma ilusão de que temos certeza do amanhã. Aprendi que as circunstâncias nos fazem aptos para encarar seus desafios, entender sem preconceitos suas razões e destemer suas consequências (por mais temorosas que possam parecer). Enfim, muitas vezes, a saudade e os obstáculos de cada fronteira me fazem desejar o regresso, mas, logo percebo que poderei regressar sempre que quiser e que essa viagem pode não se repetir. Então, vejo, como é bom estar do lado de cá, de quem vive tudo o que a vida tem para oferecer; e aí, qualquer obstáculo vira fichinha perto disso tudo (até mesmo estar fisicamente longe das pessoas que amo). E eu me sinto feliz e desejo que eles estejam bem e que tenham a mesma oportunidade de conhecer mundos diferentes como o meu.
Saudações cordiais da sua querida Sophia
Cara Sophia,
Fiquei surpreso por ter notícias suas tão rapidamente! Realmente, a senhorita deve gostar muito de tudo isso aqui. Por onde ando não há muitas novidades. Pouca paz, muita correria, preocupações , sonhos e a certeza da incerteza dos dias. E você, tem vivido dias certos ou incertos?
Saudações,
Mr. Dreamer
Olá, Mr. Dreamer,
Ando um pouco fora de órbita por esses dias e espero continuar assim por um bom tempo. Sinto falta do mundo dos mortais, dos seus conselhos e até das suas provocações, mas garanto que, em breve, nos encontraremos para um bom papo num chá das cinco.
Lembranças doces,
Sophia True
Cara Sophia,
Andei procurando por você no mundo dos mortais e não a encontrei. Como sei que este é o seu cantinho preferido, deixo esta mensagem na esperança de ter algum retorno com notícias suas. Saudades da doçura do seu olhar.
Lembranças calorosas,
Mr. Dreamer
Em meu mundo cor de rosa,preto e branco só as lembranças do passado, reveladas em papel fotográfico com fixador bem volátil. O resto, só rosas, nada mais.
ÀS VEZES
Às vezes, eu me pergunto como seria, não se tivéssemos tudo o que desejamos (porque, aí, já sabemos não haver graça alguma), mas se soubéssemos todos os nossos desejos.
Se eu soubesse os seus desejos, ainda desejaria ser um deles? Acho que sim, pois, se não temos tudo o que desejamos, aprendemos a desejar tudo o que temos (e heis a dádiva dos felicitados com a satisfação plena).
Deve ser por isso que, quase sem perceber, vou aprendendo a desejar seus desejos (mesmo sem sabe-los ao certo) e mergulhando cada vez mais fundo nesse labirinto abissal da sua alma, e vou tocando-a sem sequer vê-la, mas sentindo-a como se fosse minha. Deve ser por isso que já não desejo seus olhos, desejo a profundidade do seu olhar.
com todo respeito
você daquele jeito
dever ser bem legal
Assalto
Toma tudo que tenho.
Corre. Leva.
Por que as pessoas não entendem que, para raspar a panela, é preciso fazer o doce?
Se eu luto pelo que eu quero? Até demais... Às vezes, parece que sou uma menina mimada que não aceita tudo como a vida me entrega, que não quer nada de mão beijada e precisa sempre aperfeiçoar (ou não) alguma coisa. Às vezes, acho que eu preferia desistir mais fácil das coisas difíceis e não desejar ir tão longe. Às vezes, dá até fraqueza se fazer de forte o tempo todo...
Meu corpo acaba de me dar uma boa e uma má notícia. Pior é que eu tava sem absorvente...